
Como seria de esperar, o concerto de Tim no Centro Cultural de Belém levou ao Auditório Grande pessoas de todas as idades. É um costume que surge sempre associado aos grandes ícones da música nacional. E Tim é, indiscutivelmente, um deles. A sala esteve bem composta, todavia, algumas cadeiras vazias jaziam por entre os espetadores, que lentamente iam chegando e ocupando os seus lugares perante um palco iluminado a vermelho, onde se erguiam os instrumentos dos companheiros de aventura de Tim.
Camisa bordeaux, colete preto, óculos escuros, guitarra acústica, sorriso na cara, uma dose elevada de boa disposição e um sentido de humor apurado foi o que Tim trouxe consigo para o concerto de sexta-feira passada, embebendo estas características todas na sua personalidade pacata, simples e humilde. Com ele vieram aqueles que o acompanham nesta longa jornada que começou há já mais de três décadas: no acordeão, Gabriel Gomes (Sétima Legião); nas teclas, João Cardoso (Despe e Siga); na guitarra elétrica, Moz Carrapa (Salada de Frutas); no baixo, Fernando Júdice (Trovante); e na bateria, Fred (Orelha Negra). Para além destes nomes que integram a banda que suporta o vocalista dos Xutos e Pontapés, outros foram os convidados para a noite que se revelaria de luxo a nível musical.
“Muito boa noite, aí vamos!” - foram as palavras que inauguraram o concerto, com o “Melhor Amigo” a abrir o alinhamento. Sem demoras, logo no segundo tema, Tim chamou ao palco os restantes aventureiros da noite -Rui Veloso, Celeste Rodrigues e Vitorino Salomé -para interpretarem “Serra da Lapa”, na qual foi evidenciada a riqueza vocal do quarteto que se expressou em palco. Do rock ao fado, passando pelos cantares alentejanos, os registos vocais penetraram a plateia e deixaram o público rendido a cada uma das quatro intervenções. Grande momento. Seguiram-se uma mão cheia de canções, nas quais os convidados foram alternando a sua participação. Puderam-se ouvir peças como “O Amor”, “Bola de Trapos”, “Tinta Verde”, “Fado Celeste” e o hino “Por Quem Não Esqueci”, original dos Sétima Legião.
De seguida, a sós com a banda, Tim proporcionou um momento mais calmo ao som de músicas como “Cidade Fantasma”, “Rocha Negra”, “Num Dia Claro” e a esplendorosa “Braço de Prata”, onde a iluminação, até à data simples e pontual, ganhou outra vida, refletida na viola de Tim, encadeando a plateia no seguimento dos movimentos que o próprio desenhava sentado na sua cadeira. Um efeito involuntário, de cariz celestial, que resultou da melhor forma.
Se a noite já tinha sido de rock, fado e de cantares alentejanos, só restava mesmo fazer jus ao rap. E que melhor figura a nível nacional, muito devido ao anos que já carrega em função do mesmo, senão Carlos Nobre? O artista almadense foi, então, o convidado para dar o seu contributo na palavra falada em “Terra Tão Longe”, tema que conta com um poema do Vitorino, que o ex Da Weasel confessou adorar. E o desempenho de Carlos não ficou aquém das expetativas. Não é àtoa que o mesmo ainda se encontra entre os melhores dizedores de palavras a nível nacional.
Seguiram-se mais uma série de canções na voz harmoniosa de Tim, culminando numa tríade onde Rui Veloso foi cúmplice. O artista portuense, de guitarra azul em braços e de blues na alma, juntou-se a Tim para interpretarem em conjunto os temas “Fado do Encontro”, Sayago Blues” e o orelhudo “Voar”, demonstrando, em solos frenéticos e execuções vocais brilhantes, todo o peso ao vivo da dupla de veteranos. O concerto aproximava-se a passos largos do seu término e para a despedida, ainda que temporária, ficou o clássico “Homem Do Leme”, com uma chamada ao palco do quarteto vocal para uma última experiência que repartiu a canção por todos os intervenientes. Mais uma vez, a diversidade do registo vocal a enriquecer a canção.
Para o encore ficou guardado um momento totalmente a sós com Tim. O anfitrião regressou a cena para um lance mais íntimo, mas não sem antes partilhar mais um pouco da sua boa disposição com a plateia, através de um poema alentejano que colocou o auditório todo a rir. E foi, igualmente,num momento de brincadeira que Tim embarcou de “Bragança a Lisboa” com o tema “Maria”, em jeito de exercício de canto, que o público acompanhou com um coro fantástico. E acompanhado por um coro fantástico foi também o momento que se seguiu, ao som de “A Noite”, versão dos Xutos e Pontapés para a canção original dos Sitiados. É impossível não acompanhar o refrão “aqui ao luar, ao pé de ti, ao pé do mar...” a plenos pulmões. E assim o fizeram os presentes. Sublime.
Para o fim ficou a canção que acompanhou Tim durante muito tempo, “Luz Ao Fundo Do Túnel”, que contou, mais uma vez, com a participação de todos os convidados. Esta aventura de Tim é, de facto, uma jornada que conta com vários protagonistas, desde a banda que integra desde 78, até às participações em projetos paralelos, e, mais recentemente, os que participam na sua caminhada a solo. Mas esta aventura é também feita ao lado destas pessoas que o têm seguido ao longo destas décadas e que se têm mantido fiéis à sua carreira. Essas mesmas pessoas foram aquelas que aplaudiram de pé o artista no Grande Auditório do CCB, despedindo-se até uma próxima atuação, seja com os Xutos, Cabeças no Ar, Rio Grande, Resistência, ou seja em nome próprio, porque, apesar dos vários projetos que possa encarnar, será sempre o mesmo, o próprio, o Tim.
Manuel Rodrigues
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