É o mais velho e o mais antigo vencedor vivo do Óscar de Melhor Ator: Gene Hackman festeja 94 anos esta terça-feira.

Com uma presença intensa no cinema americano entre 1967 e 2004, costumava dizer-se que nunca teve uma má interpretação.

Ao mesmo tempo, quando esteve nomeado para o Óscar de Melhor Ator Secundário em 1993 por "Imperdoável", que viria a ganhar, um crítico comentou que tinha uma carreira cheia de papéis memoráveis em filmes medíocres e emendava o currículo com o filme de Clint Eastwood.

Exageros à parte — nota-se o desconforto como padre em "A Aventura do Poseidon", que sempre recusou ver, a tentar elevar a qualidade de um daqueles filmes-catástrofe tão populares nos anos 1970 que juntava jovens estrelas e muitos veteranos de Hollywood numa história com elevada taxa de mortalidade —, Gene Hackman, apesar de ter como ídolo Marlon Brando, sempre pareceu ser um adepto da técnica de representação celebrada por Spencer Tracy: 'aprender os diálogos e não tropeçar na mobília'.

Enquanto ator, o que transparecia era que olhava para cada personagem com uma profunda honestidade para encontrar e transmitir a sua verdadeira essência, sem pensar se ela iria parecer simpática ou antipática ao espectador.

Foi por isso que, mesmo que o filme fosse mau — e Hackman trabalhou bastante, muitas vezes a elevar com a presença material que não estava ao seu nível —, nunca se duvidou que pudesse um polícia implacável, um sádico xerife, um treinador de basquetebol, o comandante de um submarino nuclear ou até um delirante Lex Luthor: ele ajustava-se com a naturalidade a todas as peles e era instantaneamente credível, como se não estivesse a representar.

Rodagem "Os Incorruptíveis Contra a Droga": o realizador William Friedkin com Gene Hackman e Roy Scheider

Nascido em 1930, Eugene Allen Hackman teve que conviver com o alcoolismo da mãe, que morreu vítima de um incêndio que ela mesma provocou em 1962, e viu o pai abandonar a família quando tinha 13 anos: contaria muito mais tarde que o acenar de despedida distante na rua o marcou para sempre. De tal forma que se pode dizer que, na sua carreira, muitas vezes bastavam pequenos gestos para definir completamente as personagens.

Para fugir a uma existência perdida no 'Midwest' americano, alistou-se nos fuzileiros aos 16 anos. A seguir estudou jornalismo e produção televisiva, teve uma série de peculiares empregos e, quando finalmente procurou satisfazer as ambições artísticas em Nova Iorque, partilhou com Dustin Hoffman não só o apartamento como a distinção de serem votados pela turma como os mais improváveis de conseguirem ter sucesso.

Efetivamente, Gene Hackman andou muito tempo à deriva, com pequenos trabalhos em televisão e teatro 'Off-Broadway', mas durante a sua estreia no cinema em "Lilith e o Seu Destino" (1964) conheceu brevemente o protagonista, Warren Beatty, que o convidou para um papel secundário noutro projeto, um filme que marcou um antes e depois do cinema norte-americano: "Bonnie e Clyde" (1967).

Bonnie e Clyde: Gene Hackman, Estelle Parsons, Warren Beatty, Faye Dunaway e Michael J. Pollard

Como irmão de Clyde, Hackman revelou-se um íman de energia e conseguiu a primeira nomeação para o Óscar. Aos 37 anos, a carreira estava lançada: a seguir, já apareceu ao lado de Burt Lancaster em "Os Paraquedistas" (1968), de Robert Redford em "Os Corredores da Montanha" (1969), antes de se tornar um astronauta ao lado de Richard Crenna e James Franciscus em "Perdidos no Espaço" (1969).

A segunda nomeação para as estatuetas douradas, ainda como secundário, aconteceu com o drama familiar "Choque de Gerações" (1970), um ano antes de grande explosão na carreira, quando o ator que parecia talhado para papéis de composição, mas em segundo plano, se tornou... uma estrela de cinema.

Ao encarnar Popeye Doyle, o detetive da polícia nova-iorquina que desmantelava uma quadrilha de traficantes, um dos grandes anti-heróis dos anos 1970, "Os Incorruptíveis Contra a Droga", Hackman ganhou o Óscar de Melhor Ator, definiu uma 'persona' e começou a construir essa carreira feita de homens normais 'à antiga' a quem nada era dado de mão beijada e só triunfavam com muito trabalho e espírito de sacrifício.

Francis Ford Coppola e Gene Hackman na rodagem de "O Vigilante"

A seguir ao Óscar, rodou filme atrás de filme, encaixando em todas as personagens e géneros: para o melhor e para o pior, foi a fase prolífica de "A Aventura do Poseidon" (1972), "A Esposa Comprada" (1974), "Desafio à Coragem" (1975), "Lucky Lady - Uma Mulher dos Diabos!" (1975), "Uma Ponte Longe Demais" (1977), "Atentado ao Presidente" (1977) ou "A Legião Estrangeira" (1977) e até a sequela "Os Incorruptíveis Contra a Droga n.º 2" (1975), mas também de "Carne de Primeira" (1972), "O Espantalho" (1973) e "Um Lance no Escuro" (1975), além daqueles que talvez sejam os melhores momentos na carreira, "O Vigilante" (1974), às ordens de Francis Ford Coppola, que descreveu como o seu filme preferido, e uns célebres cinco minutos como o eremita cego em "Frankenstein Júnior" (1974).

Após fazer-se pagar bem para ser Lex Luthor em "Superman" (1978) e "Superman II - A Aventura Continua" (1980, mas rodado em simultâneo com o primeiro), entrou na década de 1980 mantendo um elevado ritmo de trabalho, alternando papéis como protagonista e secundário, e filmes que só valem pela sua presença com bons momentos em "Reds" (1981, um reencontro com Warren Beatty), "Debaixo de Fogo" (1983), "Duas Vezes numa Vida" (1985), "A Raiva de Vencer" (1986, considerado um dos melhores filmes sobre desportos de sempre), "Alta Traição" (1987) e "Mississipi em Chamas" (1988, a segunda nomeação para o Óscar de Melhor Ator). E ainda fez uma pequena participação em "Recordações de Hollywood" (1990) só para contracenar com Meryl Streep.

GENE HACKMAN: OS FILMES.

Em 1990, Hackman teve alguns problemas no coração e submeteu-se a uma angioplastia, mas continuou a trabalhar intensamente, acumulando durante essa década dois ou três filmes por ano. Querendo evitar personagens violentas, teve de ser convencido por Clint Eastwood a ser o sádico xerife "Little" Bill Daggett em "Imperdoável" (1992) e depois de ganhar com a interpretação o segundo Óscar (como secundário), continuou a encher o ecrã e dominar as atenções, sempre como grande senhor do cinema, com grandes momentos em "A Firma" (1993), "Wyatt Earp" (1994), "Rápida e Mortal" (1995), "Maré Vermelha" (1995) e "Inimigo de Estado" (1998), este com muitos ecos da personagem que interpretara em "O Vigilante", e "O Golpe" (2001).

Nesta última fase da carreira, também se entregou a papéis mais cómicos, brilhando como o produtor de segunda categoria em "Jogos Quase Perigosos" (1995) e um barão do tabaco chaminé ambulante em "Matadoras" (2001) e principalmente como o patriarca de "Os Tenenbaums - Uma Comédia Genial", realizado por Wes Anderson (2001).

Gene Hackman à direita, durante a rodagem de "Imperdoável"

Em 2003, mais de 40 anos após terem sido ambos votados "os mais improváveis de atingir sucesso", Hackman e Dustin Hoffman também se encontraram finalmente pela primeira vez em "O Júri", mas no ano a seguir, estreou o que viria a ser a sua despedida como ator, "Alce Daí, Senhor Presidente", uma comédia fraquíssima com Ray Romano.

Não que se soubesse que era a despedida: longe de cultivar o mediatismo de Hollywood e sempre avesso a dar entrevistas, simplesmente deixou de aparecer, com a mesma naturalidade e dignidade com que estivera durante 40 anos no grande ecrã. Só em 2008 confirmou que se tinha reformado, cansado dos 'bastidores da indústria' e depois de avisado pelo médico que o coração já não aguentava situações de stress.

Por esta altura, Hackman ia no terceiro livro depois de se ter reinventado como romancista de algum sucesso nos EUA, uma paixão antiga. De resto, pouco se sabe do regresso ao anonimato, ao lado da pianista clássica Betsy Arakawa, com quem casou em 1991, a não ser que também voltou a dedicar-se à pintura e, pelo menos até 2019, continuava bastante ativo e a andar de bicicleta todos os dias.

Apesar de ter dito numa entrevista à GQ em 2011 que podia pensar em fazer mais um filme — na sua própria casa e com pouca gente a incomodar —, nunca terá estado perto de voltar ao ativo. E circula a história de que terá recebido um dia a visita de um velho amigo, apenas alguns meses mais novo, com a intenção de ter uma conversa para o convencer a regressar.

Desta vez, Clint Eastwood não conseguiu o que queria...

GENE HACKMAN EM 2014 E AS SUAS PINTURAS.

GENE HACKMAN EM 2018.