Gene Hackman, que foi encontrado morto na sua casa no Novo México aos 95 anos, chegou a ser votado como um provável fracasso no mundo do entretenimento, mas em vez disso desfrutou de uma carreira célebre e com dois Óscares como um ator para todas as personagens que explorou a dor pessoal em interpretações intensas e ousadas.

O ator norte-americano foi encontrado sem vida ao lado da esposa, Betsy Arakawa, uma pianista clássica de 64 anos, e do cão do casal. Não há indícios imediatos de que um crime tenha sido cometido, disse à imprensa Adan Mendoza, o xerife do condado de Santa Fé.

Morreu Gene Hackman, o grande senhor do cinema americano
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Hackman é talvez mais conhecido por interpretar o duro e grosseiro polícia nova-iorquino Jimmy "Popeye" Doyle no thriller "Os Incorruptíveis Contra a Droga" (1971).

A sua cena de perseguição de carro de cinco minutos e meio - na qual Doyle abre caminho pelas movimentadas ruas da cidade, de rosto intenso, aos berros e a buzinar, enquanto persegue um criminoso em fuga através do metropolitano - faz parte da lenda de Hollywood.

Hackman ganhou o seu primeiro Óscar de Melhor Ator pelo filme. Outra estatueta chegaria duas décadas depois, como Melhor ator Secundário pela interpretação do brutal xerife de uma pequena cidade "Little Bill" Daggett no western "Imperdoável" (1992), dirigido por Clint Eastwood.

Recebeu mais três nomeações durante uma carreira de cinco décadas e mais de 80 filmes.

“Ele é incapaz de fazer um mau trabalho”, maravilhou-se Alan Parker à revista Film Comment no ano em que saiu a sua colaboração "Mississipi em Chamas" (1988), um controverso drama sobre Direitos Civis que foi uma das suas nomeações.

E acrescentaria: “Todos os realizadores têm uma curta lista de atores por quem morreriam pela oportunidade para trabalhar, e aposto que o Gene está em todas.”

Reagindo à notícia, o cineasta Francis Ford Coppola, que o dirigiu em "O Vigilante" (1974), vencedor da Palma de Ouro em Cannes e que se dizia ser o seu filme favaorito entre os que fez, chamou-lhe "um grande artista, inspirador e magnífico no seu trabalho e complexidade".

Raízes no 'Midwest' americano

Gene Hackman na rodagem de "O Alvo" a 7 de janeiro em Paris

Gene Hackman era natural do 'Midwest' americano, nascido em Illinois em 30 de janeiro de 1930, durante a Grande Depressão nos EUA.

Nasceu numa família desestruturada – o seu pai partiu quando tinha 13 anos, acenando enigmaticamente enquanto ia embora. Hackman disse que soube naquele momento que ele nunca mais voltaria.

A mãe morreu num incêndio antes de ele se afirmar como ator.

Ele também serviu durante um período desagradável nos fuzileiros dos EUA, onde ingressou aos 16 anos, mentindo sobre a sua idade.

Ele usou esta turbulência pessoal como combustível para dar dimensão às suas personagens.

“Famílias disfuncionais geraram vários atores muito bons”, diria ao jornal The Guardian em 2002.

Arthur Penn, que o dirigiu Hackman em "Bonnie e Clyde" (1967), "Um Lance no Escuro" (1975) e “O Alvo” (1985), chamou-lhe um “ator extraordinariamente sincero”.

“Ele tem a capacidade de explorar emoções ocultas que muitos de nós encobrem ou escondem – e não é apenas capacidade, mas coragem”, notava.

Um ator, não uma estrela

Gene Hackman com o Óscar de Melhor Ator Secundário por "Imperdoável" (1992), ao lado da também premiada Marisa Tomei

Hackman foi uma estrela improvável - começou a atuar relativamente tarde, depois de se envolver numa série de empregos, e só atraiu a atenção depois dos 30 anos.

Na verdade, depois de se matricular na escola de representação Pasadena Playhouse, na Califórnia, no final dos anos 1950, a lenda de Hollywood conta que ele e um colega, Dustin Hoffman, foram votados como aqueles com "menos probabilidade de alcançar o sucesso".

Mais tarde, juntaram-se a Robert Duvall em Nova Iorque, quando todos eram atores em busca de oportunidades.

Sem ser abençoado com a típica boa aparência de um ator principal, em vez disso Hackman valeu-se do seu talento e versatilidade, assumindo papéis corajosos e apresentando interpretações inteligentes e honestas.

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"Queria representar, mas convenci-me sempre que os atores tinham que ser bonitos. Isso veio desde os tempos em que Errol Flynn era o meu ídolo. Saía do cinema e assustava-me quando me via ao espelho porque não me parecia com o Flynn. Sentia-me como ele", disse uma vez.

Depois de estudar jornalismo na Universidade de Illinois, tentou primeiro produção televisiva antes de ir para a Pasadena Playhouse.

Após a formatura, Hackman voltou para Nova Iorque, onde trabalhou no circuito fora da Broadway e começou a chamar a atenção.

Em 1964, foi escolhido para a peça "Any Wednesday" na Broadway, o que o levou a um pequeno papel no filme "Lilith e o Seu Destino", protagonizado por Warren Beatty.

Alguns anos depois, Beatty estava no elenco de “Bonnie e Clyde” e escolheu-o para ser Buck Barrow, o irmão de Clyde, a sua personagem.

Esse filme histórico de 1967 rendeu a Hackman a sua primeira nomeação para o Óscar de Melhor Ator Secundário e colocou-o firmemente no caminho do estrelato.

Uma segunda nomeação chegou com "Choque de Gerações" (1970), no qual interpretou um professor que sente que nunca obteve a aprovação do seu pai.

“Fui treinado para ser um ator, não uma estrela. Fui treinado para interpretar papéis, não para lidar com a fama, os agentes, os advogados e a imprensa”, recordaria mais tarde.

Hackman fez dezenas de filmes, trabalhando a grande ritmo para lá dos 70 anos, mas já longe dos holofotes, morando com a sua segunda esposa em Santa Fé, a escrever e a pintar.

Já este século, entrou em "O Golpe" e "Os Tenenbaums - Uma Comédia Genial", ambos em 20021, rendendo-lhe este último um terceiro Globo de Ouro, antes de se retirar em 2004 e confirmar a reforma quatro anos mais tarde.

“Custa-me realmente muito emocionalmente ver-me no ecrã”, afirmou certa vez.

"Penso em mim mesmo e sinto-me como alguém muito jovem, e depois olho para este velho com o queixo flácido, os olhos cansados, entradas e o resto.", resumia.