
Não faltou também, no espetáculo de sexta-feira,a “Canção simples”, com luz quente e com a voz cheia de Tiago Bettencourt, que se juntou à do público para entoar “fazes muito mais que o sol”. Também por lá passou o “Pó de Arroz”, originalmente de Carlos Paião, e o “Cenário”, o primeiro single dos Toranja, que arrancou muito abanar de cabeça e bater de pés um pouco por toda a sala. “O Jogo”, no piano, com Tiago sozinho, teve direito a uma das maiores ovações da noite e a um final magistral, digno de um hino à coragem, uma ode à música, uma homenagem à língua portuguesa que Tiago agarrou desde sempre e não faz tenção de largar.
“Quem começa? Começamos todos? Não sei os arranjos das minhas próprias músicas”, confessa, a certa altura. Com a suamemória fraca a vir ao de cima várias vezes, era ver quem sabia melhor as letras: ele ou o público.
Com um majestoso Coliseu de pano de fundo e uma repleta casa à sua frente, era altura de chamar a palco o convidado da noite, Samuel Úria, que trouxe, além doseu casaco verde, o humor para o palco, começando a prestaçãopor agradecer a Tiago Bettencourt por lhe fazer “a primeira parte”. Entre risos e gargalhadas, lá soou a "Maria Clementina" -uma música “de autor desconhecido”, diz Samuel. Ficaram, depois,os dois sozinhos em palco, para interpretarem uma música da autoria de Samuel Úria, “Lenço enxuto” - uma música, nas palavras de Tiago, “que fala de não saber chorar de uma forma muito perspicaz”.
De novo sozinho com a banda em palco, Tiago tocou a “Canção de Engate”, de António Variações, eainda deu um cheirinho de “Walk on the Wild Side”, que engatou em “Só mais uma volta”, repleta de coros do público e de acordes dedilhados. “Laços” apareceu com cara nova, numa versão mais calma, lenta, quase ao ritmo de embalar. Houve aindatempo para a famosa “Carta” e para o êxito “Chocámos tu e eu”, já com a sala de pé a gastar o que achávamos serem os últimos cartuchos do concerto.
Às 23h30, os músicos voltaram para um encore, que começou coma música “Campo - “uma canção para uma noite de verão, com um copo de vinho na mão". Sempre cheias de alma, de corpo, de lugares comuns desfeitos, as letras de Tiago Bettencourt fazem de nós, como nos diz o músico, “cúmplices para sempre”.
Houve tempo ainda para uma música de apelo à revolução, ao conhecimento e ao acordar.
Uma música chamada “Eu esperei”, que termina com os versos “Acorda, Portugal”.
No Coliseu, Tiagoadormeceu o monstro que circunda muitas cabeças e que diz queamúsica portuguesa é menos boa, ou tem menos valor.O artista encheu a sala que lhe deram - encheria mais uma se lha tivessem dado -,cantou e encantou com a arma que escolheu, com a língua com que nasceu e encheu o serão de 300 pessoas de alma, de garra, de emoção, de letras que merecem toda a fama que tem... e mais alguma.
Texto: Inês Espojeira
Fotografias: Cátia Martins
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