As primeiras palmas da noite fizeram-se ouvir ainda se davam os últimos retoques nos instrumentos em palco, com as luzes ainda bem altas. Mas logo surgiram os Deolinda, prontos para a festa, prontos para encher a plateia de mimos musicais. Primeiro os senhores – Pedro da Silva Martins, Luís José Martins, José Pedro Leitão e Sérgio Nascimento, ambos de vestimenta negra, séria – e depois a senhora – Ana Bacalhau -, já se ouviam os primeiros acordes de Algo Novo, música que abre portas ao “Mundo Pequenino”, ainda fresco, e que abriu, também, portas a uma noite de celebração.

Ana canta e a voz sai-lhe a sorrir. No Coliseu, aplaude-se o que é nosso, com os Deolinda a não perderem as tradições, o rumo, bem agarrados às suas raízes, ainda que com novos instrumentos às costas. À família de músicos junta-se um trio de sopro – Gonçalo Marques no trompete, Gil Gonçalves na tuba e Mário Amândio no trombone – e todos juntos interpretam Concordância, autêntico reviver de uma aula de língua portuguesa, com os alunos, sentados e atentos, a repetirem cada palavra, baixinho. Segue-se Gente Torta, com as notas sublimes do piano de Joana Sá a embalarem as dinâmicas vocais de Ana Bacalhau.

“Canção ao Lado”, o aclamado disco de estreia, de 2008, dividiu, ao longo do espetáculo, as atenções com os seus irmãos mais novos, “Dois Selos e um Carimbo”, e “Mundo Pequenino”, que se apresentaram mais requintados que nunca. O público grita “Bravo!!!” a pulmões cheios. As palmas chegam sem serem pedidas, juntas, em força, e dão as boas-vindas a Não tenho mais razões, uma marcha popular sobre os males da vida, e a Senhor Doutor. Medo de mim dá lugar à reflexão sobre o medo, “que às vezes é bom, mas, quando é em demasia, pode levar-nos a cometer injustiças”, numa toada mais séria, tristonha, com guitarras lentas, um piano grave e o microfone no descanso.

Pois foi apresentou, pouco depois, a vingança no feminino. Há sons exóticos nesta música renovada pelo toque de mestre de Jerry Boys, o produtor que tirou os Deolinda da sua zona de conforto. Passou por mim e sorriu trouxe a nostalgia, numa melancolia doce, em jeito de embalo fadista. O bom português é retratado em Há-de Passar, com Ana Bacalhau num registo teatral exímio, amoroso e honesto, que logo passou para Mal por Mal, que criou na sala de espetáculos o primeiro ponto de rebuçado, doce e salgado, irónico e divertido.

Um dos maiores êxitos da banda, Um contra o outro, primeiro single do seu filho do meio, antecipou o ciclo de Fados à Deolinda que, “não se assustem os puristas”, não é o mesmo que o Fado, na sua génese. Fadout, dedicada aos pequenos que os grandes tentam mas não conseguem diminuir, antecipou Fado Toninho, com a respetiva letra na ponta da língua do público, e Fiscal do Fado, que guarda em si a alma de Amália no verso “Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é Fado”. Não fazem Fado, defendem, mas não faltaram pessoas a gritar da plateia: “Ahhh, fadista!”.

Fon Fon Fon surge em palco em jeito de brincadeira entre Ana e Gil Gonçalves, que, com a sua tuba, entra de mansinho, ajudando a pintar o cenário. Um episódio delicioso que deu lugar a A problemática colocação de Mastro, tema cantado até em castelhano, com cheiro a manjericos e sabor a sardinha assada.

O final da festança já se avistava e com Semáforo da João XXI tocou-se no cavaquinho uma narrativa sobre contrários, até que António Zambujo, fadista que tem “um stradivarius na goela”, salta da plateia, para um dueto cúmplice e arrepiante cantado entre sussurros, que emocionou até os lisboetas mais recatados.

Em Balanço, a voz de Ana é preciosa e estende-se em notas que vão longe, que deixam saudade. Seja Agora, tema de apresentação de “Mundo Pequenino” surge como uma luafa de ar fresco, dançante e otimista, e prepara terreno para o que se segue: Movimento Perpétuo Associativo, numa versão em que “joga” foi trocado por “ganhou”, numa alusão à vitória do Benfica no apuramento para a final da Liga Europa.

“Quem não abanar a anca, é um ovo podre” atiçou os corpos a porem-se de pé em Musiquinha, cantiga bem grande de um disco ainda maior, que pôs todo o Coliseu a dançar, enquanto Joana Sá dava baile com o seu brinquinho da Madeira e António Serginho, de bombo ao peito, liderava as tropas na hora da despedida.

E que bom que é ver o estado de glória de um público que, de pés a bater no chão, assobios e aplausos sem fim, chama a banda de volta… três vezes consecutivas! Num inesperado hat-trick de encores, Clandestino foi o compromisso de amor que antecedeu Doidos, com uma Ana Bacalhau de franja despenteada, entre sonoridades e malabarismos circenses. Quem tenha pressa que vá andando foi a antítese do que realmente se passava, com a plateia e os balcões a não mostrarem indícios de quererem arredar pé. Musiquinha, em dose dupla nesta noite, fechou o terceiro encore, com os Deolinda, vitoriosos, a firmarem-se como os principais estandartes da música popular dos portugueses.

Alinhamento:

1. Algo Novo
2. Concordância
3. Gente Torta
4. Não Tenho Mais Razões
5. Medo de Mim
6. Pois Foi
7. Passou por Mim e Sorriu
8. Há-de Passar
9. Mal por Mal
10. Um Contra o Outro
11. Fadout
12. Fado Toninho
13. Fiscal do Fado
14. Fon Fon Fon
15. A Problemática Colocação de Mastro
16. Semáforo da João XXI
17. Não Ouviste Nada
18. Balanço
19. Seja Agora
20. Movimento Perpétuo Associativo
21. Musiquinha
22. Clandestino
23. Doidos
24. Quem Tenha Pressa
25. Musiquinha

Texto: Sara Fidalgo

Fotografia: Diogo Oliveira