
Num dia em que o cancioneiro popular foi relembrado na voz de Zeca Afonso, acompanhado por um coro de centenas de milhares de pessoas espalhadas por todo o país, o Coliseu dos Recreios quase encheu para ouvir mais uma etapa da odisseia das estações de David Fonseca, que não chegou, porém, a esgotar a sala lisboeta. Um ano depois de se ter iniciado nesta aventura, eis que David Fonseca atinge o ponto alto da digressão, com um concerto em Lisboa e outro no Porto, coincidentes, igualmente, com a celebração de dez anos de carreira, depois da dissolução dos Silence 4.
Foi sob uma chuva de confetis que o concerto de sábado passado se iniciou, ao som de “Under The Willow”, com o público a manifestar-se eufórico e de plena energia para uma noite que viria requerer uso dela. E, se está em jogo a palavra energia, então diga-se de passagem que David Fonseca é um mestre na forma como a liberta em palco, contagiando a plateia de uma forma epidémica.
Estava prometido, para o alinhamento da noite, passagens por todos os momentos da carreira de David Fonseca, mas, como é óbvio, uma principal incidência no seu último trabalho: “Seasons – Rising : Falling”, lançado em dois episódios, um na primavera e outro no outono.
No palco, a encenação não podia ter sido melhor, com movimentos elevatórios de bolas suspensas que alternavam consoante o tema. Ora caíam bolas de espelhos para refletir a luz, como aconteceu em “Who Are U”, ora caíam bolas brancas, que serviam de tela para a projeção de vídeo. E foi mesmo a simular a sala de ensaios do artista que a cenografia foi elevada para outro nível, com os membros da banda a reunirem-se no centro do palco, por detrás de uma cortina de lâmpadas, lado-a-lado com David Fonseca e Luísa Sobral – a primeira e única convidada da noite -, para interpretarem “Not There Yet”, tema da artista que o anfitrião da noite fez questão de revisitar, depois de já terem cantado em conjunto, minutos antes, “It Shall Pass”.
O desenho de luzes que acompanhou o espetáculo foi de elevada competência, mantendo-se quente nas canções primaveris e alternando para tonalidades mais frias seguindo a linha das canções outonais. Ouviram-se, então, pertencentes à primeira metade de “Seasons”, temas como “The Beating of The Drums”, “Armageddon” e “What Life Is For”, com esta última a perder alguma força na versão acústica em que foi interpretada (uma opção que só viria a ser justificada já no final do concerto). Da segunda metade de “Seasons”, foram escutadas peças como “All That I Wanted”, “It Means I Love You” e “At Your Door”.
David é, sem dúvida, um artista que tem noção do que é estar em palco e da dinâmica de um espetáculo, sabendo quando e como tem de puxar pelo público de forma a não criar momentos mortos nas suas atuações. E tal ficou explícito quando varreu o público de holofote na mão em “This Raging Light”, quando fez questão de tocar o solo de “Stop 4 a Minute” no meio da plateia, ou mesmo quando pediu aos presentes que cantassem em uníssono o tema “Kiss Me, Oh Kiss Me”, de forma a que fosse ouvido em todo o lado. E realmente foi. O público respondeu ao pedido do artista e cantou a letra da canção do início ao fim, contrastando com as centenas de milhares que tentaram cantar a “Grândola Vila Morena” horas antes, falhando redondamente no conhecimento da letra da música a que se propuseram interpretar.
Finalizada a primeira parte do concerto, David e a sua banda abandonaram o palco sob uma chuva de aplausos. Um pano preto caiu, procederam-se a algumas alterações em palco e, alguns minutos depois, o músico regressou de pijama, sozinho, sentando-se a um piano montado na frente de palco, para trocar algumas palavras com o público.
O músico confessou, em jeito de brincadeira,estar descontente com algumas das atitudes que o seus fãs têm tido ultimamente. Em causa estiveram telefonemas feitos ao artista a altas horas noite. Uns revelaram silêncio do outro lado da linha, outros escassas palavras, e outros serviram como meio de dedicar canções ao músico, sendo uma delas “I Just Call To Say I Love You”, do Stevie Wonder, e outra a “Hurt”, dos Nine Inch Nails, que acabou por ser interpretada por David Fonseca, acompanhado pela sua banda já a meio do tema. Um grande momento que, curiosamente, coincidiu com os dez anos da morte do artista que popularizou o original de Trent Reznor na sua versão - Johnny Cash.
E, seguindo esta linha de versões e lembranças do passado, David cumpriu a promessa ditada poro desafio lançado na sua página do Facebook, em que se comprometia ainterpretar um temamarcante dasuaadolescência. A canção vencedora foi a “Lithium”, do trio de Seattle, que o artista fez questão de cantar com um adereço muito comum na época para o movimento grundge: a bela da camisa de flanela. Escusado será dizer que este hit de “Nevermind” colocou o Coliseu Dos Recreios todo aos saltos e em elevado grau de êxtase.
Para o final, ficou guardado o tema “The 80’s”, seguindo-se, já no encore, “U Know Who I Am” e, novamente, “What Life Is For”, desta vez na versão original,com David a corresponderà vontade de muitos de ouvir a canção com o poder dos sintetizadores, da bateria e, claro,com aenergiade David que, apesar de passadas várias horas desde oinício do concerto, ainda jorrava em palco. Foi, sem dúvida, um final à altura de um artista que nunca deixou dúvidasrelativamente aoseu desempenho ao vivo. E, consciente disso, o público desfez-se numa enorme ovação a David Fonseca e à sua banda, que o acompanhou de forma irrepreensível. O artista irá agora pisar solos da cidade Invicta no próximo dia 9 de março, no Coliseu do Porto.
Manuel Rodrigues
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