Depois de um disco com peças da fase nacionalista do compositor português, editado em 2018, o investigador e pianista revela agora “Poemas pianísticos”, com 16 obras inéditas, escritas entre os 5 e os 14 anos.

“A maior parte nunca tinha tido sequer publicada a partitura. Apenas existem em versão manuscrita. Nenhuma tinha sido gravada”, explica à agência Lusa João Costa Ferreira.

Cerca de um século e meio depois, será agora possível ouvir a música criada na infância e pré-adolescência por José Vianna da Motta, que revela “o génio de uma criança prodígio”, apoiada pela condessa de Edla e pelo rei Fernando II.

“Ele era muito novo quando compôs isto e isso é extraordinário. Isto pode ser uma surpresa para o público em geral. Mas também pode esclarecer algumas coisas relativamente à história de Vianna da Motta”, avança o pianista.

O caso do compositor português é comparável ao do austríaco Wolfgang Amadeus Mozart, que também começou a compor aos 5 anos. “Obviamente, Mozart é intocável e tocar nos deuses é sempre perigoso”, frisa o músico, além de que “a época de Mozart é uma época clássica e o virtuosismo não está no centro das preocupações estéticas”.

Apesar disso, para João Costa Ferreira é “surpreendente ver uma criança com 11 anos dominar um objeto daquela dimensão e daquela exigência” diz, referindo um desafio “até em termos de ergonomia”.

Aos 11 anos, Vianna da Motta escreveu “As inundações de Múrcia”, obra programática sobre uma calamidade de 1879 e que exige “do ponto de vista, do estofo, da corpulência, da agilidade e da destreza técnica ao piano algo mais complexo do que as obras que Mozart escreveu aos 11 anos exigiam”.

Esta primeira de três fases criativas do compositor português revela sobretudo música mais alegre, de salão, como valsas, polcas ou mazurcas, devido “ao que se ouvia em Portugal, importado do estrangeiro”.

Acrescentando outra dimensão à música agora editada, o pianista convidou a ilustradora Mariana, a miserável, para desenhar para cada uma das 16 obras: “A estética dela evoca o universo da primeira fase infantil de Vianna da Motta”.

Mariana explica que procurou que “as músicas tivessem uma ligação entre elas” e para isso colocou “uma personagem a passar por várias situações, como uma história, mas sem uma narrativa”.

Surpreendida pelo convite “fora do comum”, a ilustradora trabalhou emoções provocadas pela música para se inspirar, porque esta “música não tem palavras”.

O lançamento do disco acontece sábado, às 17:30, no Museu da Música Portuguesa - Casa Verdades de Faria, no Estoril, integrado na comemoração dos dez anos do Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa. A edição tem o apoio da Fundação INATEL, Fundação GDA, Antena 2, AvA Musical Editions e Les Nouveaux Talents.

Depois deste primeiro “Poemas pianísticos”, João Costa Ferreira prepara para 2022 um segundo volume.

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