Uma árvore tombada que é uma composição de vários pedaços acoplados uns aos outros por parafusos, uma massa de terra prensada com folhas e ramos, e um conjunto de cubos de madeira a partir de uma árvore cortada, são algumas das peças que compõem a mostra “A natureza detesta linhas retas”, patente ao público na Culturgest, em Lisboa, a partir de sábado e até dia 28 de fevereiro de 2021.

Comissariada por Delfim Sardo, a exposição passa em revista os últimos 15 a 20 anos do trabalho de Gabriela Albergaria e encontra-se distribuída por sete salas, apresentando peças fundamentais do seu percurso artístico e profissional, que passou por países tão diversos como Alemanha, Chile, Brasil, Reino Unido ou Bélgica, explicou Bruno Marchand, programador cultural da Culturgest.

“A natureza detesta linhas retas” é a tradução de uma frase proclamada pelo arquiteto paisagista do século XVIII William Kent – “Nature abhors a straight line” -, para quem toda a natureza era um jardim, e que, no fundo, resume um pouco aquilo que é o trabalho de Gabriela Albergaria.

“Trabalho muito com a questão do passear e visitar lugares”, disse a artista.

Como a própria conta, o seu trabalho começou com “um estudo mais académico da paisagem”, para depois se desenvolver para uma relação especial e de interação com a própria natureza, à medida que se apercebia da forma como as pessoas viviam esses espaços.

Por isso, desde a década de 1990, tem-se debruçado sobre as relações de aculturação da paisagem e da natureza, a partir dos processos migratórios e da globalização iniciada no século XV.

No seu trabalho estão patentes as transformações da paisagem pela ação humana, a modificação dos ecossistemas a partir das importações de espécies vegetais e a história da domesticação da natureza.

Tendo como base de formação a pintura, pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, Gabriela Albergaria coleciona materiais recolhidos na natureza e, utilizando técnicas e saberes de botânica, transforma-os em obras de arte através da escultura, da instalação, da fotografia, da pintura ou do desenho.

O seu trabalho resulta também em grande parte da intersecção do seu método criativo com os saberes de outras disciplinas ou profissões.

Exemplo disso é uma das primeiras peças da exposição, um cesto inspirado pelos desenhos encontrados num livro sobre a forma como se transportavam as plantas nas viagens de barco: “vi cestos nos desenhos e, com a forma que tinham, trabalhei com um mestre cesteiro na Alemanha”.

“Parto sempre de coisas que existem, sejam jardins, ou paisagens, ou livros. Nesse caso foi um livro sobre uma viagem que existiu”, contou.

Outra peça é um conjunto de paus e fosseis que Gabriela Albergaria encontrou em viagens que fez, alinhados horizontalmente, em suportes de suspensão, sobre uma parede pintada de azul.

Esta “linha de tempo”, como lhe chamou a artista, data de 1995, e reúne ramos de árvores partidos e sujeitos a intempéries, recolhidos na margem do Rio Magdalena (Colômbia), na praia em Cape Cod (EUA), na floresta em Neuenkirchen (Alemanha) e no Alentejo, bem como fósseis de ramos de árvores provenientes de várias origens.

Noutra sala, apresenta-se uma gravura digital sobre madeira de pau-marfim e impressão a jato de tinta sobre papel, uma peça antiga que teve uma primeira versão feita no Brasil, e que consiste em reproduções e descrições de árvores cujas madeiras foram muito exploradas ou estão em vias de extinção: Pau-Ferro, Araribá Rosa, Pau Brasil, Jatobá e Jequitibá.

A peça mais imponente na exposição chama-se “árvore” e é uma grande árvore tombada numa sala, criada a partir de ramos de acácia australiana, recolhida em Lisboa, cortados e remontados com uma nova morfologia adaptada ao local.

Esta “árvore” foi “montada de forma a que fizesse um bom desenho no espaço e faz parte de uma época em que comecei a estudar as enxertias”, explicou.

Outra obra de grande dimensão é um conjunto de cubos de madeira, montados em linha por ordem decrescente de tamanho, cortados de uma árvore morta (eucalipto) recolhida no Parque Florestal de Monsanto.

“Esta peça não tem tratamento nenhum, vai sofrer alterações com o tempo, vai fazer rachas. É intencional. Não queria que se transformasse numa peça de arquitetura”.

"Couche sourde" é a obra que se segue e também destinada a sofrer erosão do tempo: um grande bloco composto por terra, folhas e ramos prensados, que “ao longo da exposição vai ter partes que vão soltar-se, torrões que vão cair".

A terminar a exposição, é possível ver uma fileira de onze ramos enxertados de vinhas, trabalhados com bronze patinado e tinta acrílica vermelha, produzindo um forte contraste sobre o fundo branco da parede, e uma outra grande peça, sem título, que consiste num tronco de eucalipto de pé no meio de uma sala, aberto ao meio e com uma viga de cedro no seu interior, a acompanhar todo o comprimento do tronco.

Como diz Gabriela Albergaria, “é a madeira em dois estados diferentes”.

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