Artista e investigador, Bruno Caracol transformou o interior da antiga fábrica têxtil desativada, que tem vindo a acolher eventos culturais, como o Festival de Jazz de Minde, numa das grutas da serra d’Aire e Candeeiros, onde o visitante penetra e se adapta ao escuro para conhecer um mundo habitado por seres minúsculos e lugar de histórias contadas pelas populações locais.

“Subterrâneo” surgiu de uma pesquisa prévia realizada em Barcelona (Espanha) e Cali (Colômbia), tendo integrado a programação deste ano do Festival Materiais Diversos, que acontece desde 2009 no concelho de Alcanena (distrito de Santarém) e que este ano decorreu de 5 a 17 de outubro nos concelhos de Cartaxo (na primeira semana) e de Alcanena (na segunda).

Bruno Caracol mostra em “subterrâneo” o resultado da pesquisa realizada em Minde desde setembro de 2020, instigado pela curiosidade de um local onde as pessoas sabem que “vivem por cima de uma rede de túneis, em que a solidez da terra não é garantida”, e pela vontade de “procurar o que poderia haver de pensamento utópico ligado com as grutas”, disse à Lusa.

Histórias como a da “Gruta dos Revolucionários” (onde um movimento subversivo escondeu armas no final da década de 1930), das grutas como esconderijo durante as Invasões Francesas ou ainda de alguém que desapareceu no centro de Minde para aparecer noutro lugar no meio do polje, bem como as histórias dos troglóbios, que têm vindo a ser estudados pela bióloga Ana Sofia Reboleira, surgem nos trabalhos e no texto que é dito e cantado, fruto das colaborações com a Boca de Cena, com António Capaz Menezes, nos arranjos corais, e com Alzira Roque Gameiro, na tradução para minderico.

Na sua instalação, onde pode ser vista uma amostra do trabalho realizado com crianças sobre os troglóbios e pedaços dos textos de Tarde, Bruno Caracol quis contrapor à ideia de um “subterrâneo estéril” a de que “estas grutas estão profusamente habitadas” por seres que estão ainda a ser classificados e com novas espécies a serem descobertas.

“Subterrâneo” parte do conto “Fragmentos de história futura”, de Gabriel Tarde (1896), que descreve “o apocalipse, que obriga a humanidade a ir refugiar-se debaixo de terra e extingue todas as outras espécies não humanas” para pensar “o que seria a expressão da sociedade numa forma menos condicionada pelo contexto e desligada das necessidades materiais”.

“As máquinas e a extinção da natureza permitem a esta humanidade do Gabriel Tarde ser totalmente desligada de restrições materiais e aí desenvolver também este lado lúdico, sem trabalho, sem conflitos. E isso, por um lado, é interessante: o que será uma sociedade em que não temos de dedicar a nossa energia totalmente para a sobrevivência, a produção”, disse Bruno Caracol.

Do trabalho realizado em “Subterrâneo” surgiram “coisas” que o artista quer explorar em próximos projetos, continuando ainda o projeto iniciado este verão com um coletivo em Elvas, que parte da ficção científica e da tentativa de tornar Marte num lugar habitável para olhar as transformações na paisagem alentejana.

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