Fruto de uma parceria entre o Museu de Lisboa e a Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM), a peça de teatro do grupo “Nós”, intitulada “Lisboa e o 5 de outubro de 1910 – Uma história verídica e bem contada!”, foi hoje apresentada à imprensa, durante um ensaio aberto às famílias dos atores.

Composto por cerca de 40 pessoas que frequentam os diferentes centros de atividades ocupacionais e lares residenciais da APPACDM de Lisboa, este grupo de teatro vai levar à cena uma peça em cinco atos, que aborda alguns dos episódios mais relevantes que antecederam o dia da Implantação da República.

Coordenados pela terapeuta ocupacional Teresa Seco, encenadora do grupo desde que este foi criado, em 1990, os atores seguem um texto original de Ana Paula Antunes, historiadora e ex-terapeuta ocupacional da APPACDM, há muitos anos a trabalhar no Museu de Lisboa.

Antes do início do ensaio corrido, Teresa Seco explicou que se tratava de uma “aula normal”, pelo que começou com exercícios de aquecimento corporal e vocal, desempenhados pelos atores, quase todos com trissomia 21, acompanhados por uma auxiliar da associação e por um voluntário que ajuda no trabalho do teatro.

Terminado o aquecimento e antes do início do ensaio, os protagonistas retiram-se todos do palco, para voltarem a entrar e a sair, individualmente, apresentando-se à vez, com nome verdadeiro e da personagem.

Segundo a encenadora, o objetivo é que o grupo trabalhe para as escolas, já que, após a estreia, ficará alguns dias em cena no Museu de Lisboa, para que os alunos possam assistir à peça, no âmbito das visitas de estudo ao museu.

Esta é a terceira peça que o grupo apresenta em parceria com o museu, tendo a primeira – que se estreou em 2017, no arranque do projeto de parceria – abordado o tema da revolução de 1383-85, que aconteceu em Lisboa.

A segunda peça – que se estreou em 2018 - tratou o tema da revolta de 1640, que conduziu à Restauração da Independência.

O espetáculo começa um ator que representa o Zé Povinho a gritar palavras de ordem escritas em papéis - enquanto os atira ao ar -, como “desemprego”, “défice”, “bancarrota”, “impostos”, “pobreza” ou “inflação”.

Entram em cena populares e republicanos que reclamam dos gastos desmedidos da família real e terminam a exigir a República e a proclamar a morte ao rei.

A narradora, que é a autora do texto, aparece, então, em cena para contar a história e fazer a contextualização temporal, explicando que a cena se passa no final do século XIX.

O segundo ato passa-se numa sala e apresenta o rei Carlos, a rainha Amélia, a rainha-mãe Maria Pia, o primeiro-ministro João Franco e um criado a falarem sobre a agitação nas ruas.

Novamente a narradora aparece e relata o episódio histórico entre 1907 e 1908, dando abertura ao terceiro ato, em que se encena a morte do rei.

Após o regicídio, o filho mais novo é proclamado rei e, mais tarde, os republicanos encorajam as mulheres a lutarem pelo novo regime e confia a duas delas, Adelaide Cabete e Carolina Beatriz Ângelo, médicas de profissão, a incumbência de bordar as bandeiras que serão desfraldadas no dia em que a Revolução triunfar.

A cena seguinte em palco apresenta este episódio da história, passado numa sala com uma máquina de costura e uma mesa com 2 peças de tecido: uma verde e outra vermelha.

No último ato, os atores encenam os últimos dias da monarquia e a implantação da República.

Com formação teatral pelo Teatro da Comuna, Teresa Seco contou à Lusa que trabalhar com este grupo tem sido “recompensador por causa do empenhamento” que põem no trabalho.

“São sempre muito dedicados e quando gostam levam a peça para casa, estudam, desenvolvem as personagens junto ao espelho”, revelou, indicando que um dos atores contracena em casa com a mãe, que faz parte de um grupo de teatro amador.

Agosto é sempre um mês problemático, por causa das férias: “esquecem-se. Mas depois em setembro retomam”, afirmou a coordenadora do grupo, explicando que “são pessoas com dificuldade a nível cognitivo (a locomoção é praticamente normal), por isso, para eles o que é mais difícil é memorizar”.

O truque é repetir muito e fazer sempre ensaio corrido, nunca cortar, nem ensaiar cenas separadas, para não se baralharem.

O grupo ensaia todas as quartas-feiras de manhã, e os atores com mais dificuldades contam com uns ensaios extra da parte da tarde para quem tem mais dificuldade na articulação das palavras.

“Eles adoram. Não temos quaisquer problemas de comportamento, são afáveis, acatam as regras e esforçam-se, apesar de não terem notas [de avaliação]. É gratificante, pela dádiva, pelo reconhecimento”, disse Teresa Seco

Trabalhar com alunos do ensino normal é mais complicado, porque têm comportamentos mais rebeldes, amuam e é preciso estar a proibir de mexer nos telemóveis, exemplificou.

Para Teresa Seco, um dos maiores desafios é a parceria com o museu, porque “a abertura da inclusão social e a aceitação de grupos diferentes é um grande progresso”.

“Nem todos os museus têm esta abertura para receber atores diferenciados. Esta possibilidade caiu-nos do céu num encontro ocasional com Ana Paula Antunes [que nos tempos de estudante fora colega de Teresa Seco] durante uma exposição sobre varinas em Lisboa”, contou.

O trabalho do grupo de teatro “Nós” é desenvolvido também em estreita colaboração com a mediadora do serviço educativo do Museu de Lisboa, Ana Margarida Campos.

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