
Pouco faltava para a abertura das portas do Musicboxe a fila de espetadores já contornava a Rua Nova do Carvalho, no Cais do Sodré. Cá fora, algumas pessoas iam aproveitando para fumar os últimos cigarros, ou dar os últimos tragos nas suas cervejas, antes de verem os irmãos Cavanagh em ação, que, depois da recente atuação no Paradise Garage (na versão Anathema), se apresentaram no Musicboxem formato acústico.
Vários responderam à chamada da dupla britânica, enchendo a sala lisboeta e proporcionando um ambiente que talvez justificasse um espaço maior. Quiçá em formato auditório... O espetáculo começou com a saga “Untouchable Part 1 e 2” e logo cedo concluímos que a dupla não tratou apenas de despir as suas músicas, como tambémse preocupou em vesti-las com roupagens diferentes. O conceito acústico leva-nos a idealizar um cenário composto por um par de violas e umas vozes limpas. Não foi este o caso. A dupla Cavanagh encarregou-se de acrescentar à predefinição um conjunto de cordas tocadas por Vincent,que emulouo som da sua guitarra elétrica através dum computador, e os acessórios de Danny que, para além dos efeitos usuais de guitarra,contava comum pedal de repetição, com o qual construía laços rítmicos. Tal condição valeu-lhe o rótulo de “rei dos loops”, por parte do irmão mais novo, já a meio do concerto.
De facto, o espetáculo foi brindado por uma característica muito intimista, com os irmãos a ingressarem em inúmeras brincadeiras com o público, proporcionando, assim, uma maior empatia com os presentes. E tal proximidade começou muito antes das portas abrirem. Minutos antes da hora marcada, Danny vagueava pelas proximidades do Musicbox, de fones na cabeça, contemplando a fila que até então se formara para o(s) ver ao vivo. Já dentro do espaço, o mesmo confraternizou com algumas pessoas na plateia antes de subir ao palco. Já no palco, os irmãos não se cansaram de tentar proferir algumas palavras na língua de Camões, de despejar elogios a Portugal e à cerveja nacional, e de salientar pormenores da atuação da noite anterior, no Porto.
Para aqueles que simpatizam com a fase mais recente do coletivo de Liverpool, foram servidos temas de “We’re Here Because We’re Here”, como “Thin Air” e “Dreaming Light”. Do álbum “Weather Systems” foi possível ouvir, para além da peça de abertura, a canção “The Beginning And The End”, que encerrou o concerto com um convite ao colega Daniel Cardoso para os acompanhar nas teclas. Para os mais saudosistas e defensores da obra clássica dos Anathema, o duo fez questão de revisitar “Judgement” através de canções como “Deep”, “Forgotten Hopes” e “One Last Goodbye”. Esta trilogia foi recebida com grande enlevo por parte dos presentes, que acompanharam em uníssono as suas letras e melodias. Houve aindaespaço para uma passagem por “Alternative 4”, com “Lost Control” e “Fragile Dreams”, e ainda pelo álbum “Eternity”, com “Hope” e “Angelica”.
Numa noite pautada por deslocações temporais na discografia dos Anathema, a dupla Vincent e Danny apostou ainda em resgatar uma mão cheia de covers. Tudo começou com a “Wasted Years”, dos Iron Maiden, tocada por Danny no piano, enquanto se procedia à reposição da corda que o próprio partira na sua acústica. No final do tema, e quando tudo indicava que se iria ouvir a “Easy”, dos Commodores, eis que os irmãos Cavanagh mergulharam no “The Wall”, dos Pink Floyd, com “Another Brick In The Wall”, para, momentos depois,emergirem com“The Division Bell”e “High Hopes”. Pelo caminho, foi possível escutar ainda a versão ao vivo de “Big Love” (1997), dos Fleetwood Mac, e “To Build a Home”, dos Cinematic Orchestra. Num concerto que se estendeu por quase duas horas e meia, podiam ter sido feitas algumas poupanças em torno deste assunto, até porque algumas das covers não resultaram da melhor forma.
Não resultou da melhor forma, também, o desenho de luz que acompanhou a parelha britânica,que teimavaem recorrer a cores quentes, quando as músicas pediam o contrário, apresentando-se, igualmente, de forma dessincronizada. Destaque ainda para a luta infindável que Danny travou com o ar condicionado,que o importunoudurante grande parte do concerto eo impediude se ouvir a si próprio em palco. O ruído que o aparelho emanava era tanto que, apesar de estar montado em palco, se fazia ouvir no fundo da sala. Imaginemos então o massacre...
Concluído o concerto, a dupla abandonou o palco sob a promessa de regressar a solo português para executar alguns trabalhos de estúdio. Até mais novidades sobre o assunto, fica para a memória este concerto acústico e a jura de um grande amor em torno destas terras lusitanas. Típico ou não, facto é que o coletivo britânico não falha, há largos anos, umas passagens por Portugal.
Manuel Rodrigues
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