Tem havido uma espécie de branda desilusão a circular em torno de
«Olhos Grandes». Podemos até admitir que a sua radical ausência das nomeações para os Óscares resulta, em parte, desse sentimento (e convenhamos que as omissões de Danny Elfman, na categoria de banda sonora original, ou de Bruno Delbonnel, na direcção fotográfica, são algo desconcertantes).

De um modo geral, há um sentimento de encapotada acusação ou, pelo menos, de intransponível resistência: «Olhos Grandes» seria um «falso» Tim Burton. Como se o autor de exuberantes parábolas fantasistas como
«Eduardo Mãos de Tesoura» (1990) ou
«Charlie e a Fábrica de Chocolate» (2005) não estivesse presente nesta história mais íntima, conjugal em boa verdade, que se distingue por uma aparência mais clássica...

É bem provável que o próprio Burton seja o primeiro a reconhecer a involuntária ironia desta reação. De facto, «Olhos Grandes» é, no essencial, a história de uma perversa e monumental falsificação, com os retratos de «olhos grandes» criados por Margaret Keane (Amy Adams) a serem divulgados e vendidos pelo seu marido Walter Keane (Christoph Waltz) como se fossem de sua autoria. Dito de outro: um dos temas nucleares da obra de Burton — o modo como o real vive também através do modo como o designamos pelas palavras — está presente de princípio a fim na suave angústia poética de «Olhos Grandes».

Nesta perspetiva, o filme envolve o mais amargo dos enigmas. Assim, somos necessariamente levados a perguntar como, de que modo e sobretudo em que momento a impostura de Walter se apropria do trabalho de Margaret, a ponto de esta entrar numa espécie de limbo emocional em que, de facto, a sua identidade não tem direito a existir — Amy Adams é prodigiosa na figuração desse existir sem existência.

Escusado será dizer que, no limite de tudo isto — até porque se trata de uma história com personagens verídicas, tendo mesmo Margaret Keane, actualmente com 87 anos, acompanhado todo o projeto —, está a possibilidade de a criação artística, contra ventos e marés (e maridos oportunistas...), afirmar a sua verdade conceptual e autoral. Burton encena tudo isso com um carinho inexcedível, reafirmando o mais bela dos idealismos. A saber: a verdade da arte acaba sempre por vencer a intolerância do real.

REVISTA METROPOLIS