Em declarações aos jornalistas, Francesco Filidei explicou que compôs “Requiem” para o Remix Ensemble, “sozinho em casa, durante a pandemia”, num contexto de “sentimentos estranhos”.

“Acho que isso se vai sentir em algumas das partes do 'Requiem', algo mesmo opressivo”, declarou, salvaguardando, todavia, que a ideia para escrever a peça musical apareceu ainda antes da propagação da doença e do início do confinamento.

“Requiem”, que se estreia na terça-feira, na Sala Suggia da Casa da Música, pelas 19h30, é uma composição dedicada ao escritor italiano Antonio Tabucchi (1943-2012), o autor de "Nocturno Indiano" e "Afirma Pereira", que acabou por se fixar em Portugal, onde morreu.

“'Requiem' é o título de um dos seus melhores livros. A história passa-se em Lisboa, suspensa no tempo. A última vez que falei com Tabucchi foi num daqueles encontros malucos, como os que ele descreve nesse mesmo romance. Achei-o muito melancólico, sentado no bar do aeroporto de Pisa. Combinámos encontrar-nos novamente em Paris, onde ele morava. Mas acabei por nunca mais o ver. Este 'Requiem' deve-lhe algo. Apesar do latim. Apesar das formas rígidas, que ele poderia muito bem não aprovar”, explica o compositor.

Questionado sobre o porquê de “Requiem” (descanso, repouso) para assinalar os 20 anos do Remix, o compositor considerou que é uma forma de “sentir melhor a ausência”.

“É que, no fim desta peça, com o Agnes Dei, o Ensemble vai, a pouco e pouco, esmorecendo e deixando o coro por si só. Mas, desta forma, temos uma maneira de sentir melhor algo que já não está lá. Por isso, precisamos de mais. Foi por isso que pensei que um Requiem seria uma boa ideia, para fazer avançar o Ensemble ainda mais, de modo a que o tenhamos durante muito mais tempo”, concluiu.

O diretor artístico da Casa da Música (CdM), António Jorge Pacheco, explicou que “Requiem” é uma obra encomendada pela Casa da Música e várias outras instituições europeias, a Francesco Filidei, uma pessoa "importante para o Remix Ensemble"

"Aqui estreámos a sua primeira ópera ['Giordano Bruno', 2015], que teve depois circulação internacional, e desde aí ele manteve-se sempre muito ligado ao Remix, que tem um imenso prazer em tocar com ele e colaborar com ele, e ele também assim o sente”, acrescentou António Jorge Pacheco.

O concerto do Remix Ensemble da próxima terça-feira vai também contar com a participação do pianista francês Peter-Laurent Aimard, um dos mais principais intérpretes da atualidade de repertório contemporâneo.

Em declarações à Lusa, Aimard afirma que é “uma grande alegria” tocar no 20.º aniversário do Remix.

“É um Ensemble notável. É magnífico que numa Casa [da Música], que é uma Casa única, possa ter nascido este Ensemble, ter-se desenvolvido e estar a este nível de excelência. É de uma enorme importância esta colaboração fiel. E poder festejar este aniversário é uma grande alegria”, afirmou.

Questionado sobre o impacte da COVID-19, Aimard declarou que esta doença contagiosa teve “consequências desastrosas para o mundo do espetáculo”, assim como para todas as pessoas que nele trabalham.

“Para todos os músicos foi uma reviravolta completa, uma prova muito difícil, mas uma ocasião de redescobrir o caráter essencial, indispensável, iluminado de fazer música e de a partilhar em palco com o público. E depois de viver esta experiência [do confinamento], durante meses, redescobrir um público, mesmo que distanciado e em menor número, foi para todos nós uma agitação extraordinária, uma revelação, um novo nascimento, com momentos de uma intensidade de partilha insuperável”.

O regente Peter Rundel, maestro titular do Remix Ensemble há 15 anos, disse hoje aos jornalistas, durante o intervalo do último ensaio do “Requiem”, antes da estreia mundial, que apresentar uma obra do Francesco Filidei tem um “significado especial” para todo o agrupamento.

"Temos colaborado com ele [Francesco Filidei], enquanto Remix Ensemble, ao longo dos anos. Começámos por tocar a sua ópera 'Giordano Bruno', já há alguns anos [2015], na Casa da Música. Por isso queremos celebrar este aniversário com compositores e solistas que são nossos amigos. Como puderam ver no ensaio, uma coisa é estudar uma nova peça e ter uma ideia de o que deve ser, e depois chegar à realidade da sala de concertos - à realidade dos sons -, e termos de nos adaptar. Temos de fazer acontecer o espírito da peça. E isso significa, tecnicamente, como puderam testemunhar, muitas alterações”.

A primeira parte do espetáculo de “Requiem” inclui música revolucionária, “ligada ao movimento espetralista que floresceu a partir dos anos 70". Inclui "Joy", para ensemble e electrónica, de Magnus Lindberg, um dos compositores contemporâneos mais tocados pelas principais orquestras mundiais, e “L’Origine du Monde”, para piano e ensemble, de Hugues Dufourt, obra que conta com Pierre-Laurent Aimard, como solista.

O Remix Ensemble apresentou, ao longo dos 20 anos de existência, cerca de uma centena de obras em estreia mundial, tocou por toda a Europa, e foi a primeira orquestra portuguesa a atuar na Elbphilharmonie de Hamburgo.

O Remix tem 17 discos editados com obras de Brice Pauset, Miguel Azguime, Nuno Côrte-Real, Jorge Peixinho, James Dillon, Klaus Ib Jorgensen, Johannes Maria Staud, Emmanuel Nunes, Bernhard Lang, António Pinho Vargas, Wolfgang Mitterer, Karin Rehnqvist, Pascal Dusapin, Luca Francesconi, Unsuk Chin, Johannes Schöllhorn e Georges Aperghis.

As regras de segurança sanitária impõem o uso de máscara durante a permanência dos espectadores na Casa da Música, designadamente durante o concerto. A Casa da Música pede ainda ao seu público a manutenção do distanciamento social e a higienização das mãos, à entrada do edifício.

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