O concerto dos norte-americanos Dinosaur Jr., apesar de enfrentar problemas técnicos diversos - como falhas na passagem do som dos amplificadores, queda de frequência, guitarras com desajustes - foi, ainda assim, uma experiência e tanto!

O tema de arranque da noite no palco principal, "Thumb", foi o que denotou os desarranjos citados acima, e da maneira mais desconfortável para todos os que estavam presentes.

Outro ponto a destacar é que as guitarras (uma Stratocaster e uma Jazzmaster) tiveram de ser emprestadas à última hora a J Mascis, porque os instrumentos do vocalista e mentor do projeto haviam sido extraviados. "Provavelmente a voarem rumo a Itália" naquele momento, disse de forma irónica o baixista Lou Barlow.

E, de facto, Mascis precisou de afinar a guitarra antes prosseguir com "I Ain't", situação que se repetiu em cada uma das canções. Cada uma, mesmo, sem exagero. Ao fim de cada tema, o guitarrista e vocalista tiveram de reafinar.

No entanto, "Been There All The Time", "Little Fury Things" e "Mountain Man" evocaram vibrações absolutamente positivas do público, conduzidas pela batida pulsante de Murph na bateria.

O encerramento deu-se ao som de "Freak Scene" e mais duas versões: "Just Like Heaven" (dos The Cure) e "Chunks" (dos Last Rights).

Dinosaur Jr.
Dinosaur Jr. créditos: Stefani Costa

A diversidade que se encontra num festival como o NOS Primavera Sound assim é mesmo algo que impressiona a valer. Tanto que, poucos minutos após o final da atuação dos Dinosaur Jr., Pabllo Vittar chegou e abalou com uma maquilhagem impecável e vitalidade deslumbrante de sempre.

Além de colocar os europeus a dançar tecno-brega (um estilo criado no norte do Brasil misturando forró e música eletrónica), a cantora Drag Queen mais famosa da atualidade fez questão também de se posicionar politicamente ao fazer o 'L' de Lula com os dedos das mãos enquanto atuava. Num ano de eleições no Brasil em que a extrema-direita tem cooptado votos da periferia, é importante uma artista com apelo tão popular ajude na luta pela conscientização dos povos mais pobres e dos trabalhadores que vivem à margem do neoliberalismo multi-corporativista.

Pabllo Vittar
Pabllo Vittar créditos: Stefani Costa

A uma centena de metros, o grupo Jawbox, de Washington, veio a público no palco Binance pontualmente, às 22h30. J. Robbins (voz e guitarra), Kim Coletta (baixo), Zach Barocas (bateria) e o novo guitarrista Brooks Harlan (substituindo Bill Barbot, que integrou a banda de 1992 até 2021) chegaram com uma grande motivação, mas logo Robbins fez questão de relatar que "deixou a voz em Barcelona". Era notório o quanto teve dificuldade em cantar.

O início do espetáculo mais comovente até então veio com "Mirrorful", tema que também abre "Self-titled", um dos mais prestigiados do grupo, editado em 1996.

"Nickel Nickel Millionaire", "Cutoff", "68" e "Desert Sea" vieram em seguida. A pele da caixa (ou tarola) da bateria de Zach furou, porém o roadie logo lhe entregou uma emprestada para que pudesse continuar. Robbins comentou com o público que não é a primeira vez que isso acontece e ouviu uma resposta vinda da plateia com alguém a dizer "e não será a última". "Spoiler" e "Reel" demonstraram bem as nuances da atmosfera alternativa a fim de que a energia dos Jawbox voltasse a fluir.

Jawbox
Jawbox créditos: Stefani Costa

"Cooling Card", "Static", "Motorist" e "Tongues" deram um ar anos 1990 que amamos nesse segmento, quando saíram os álbuns de onde essas canções foram extraídas, mais especificamente "Novelty" (1992) e "For Your Own Special Sweetheart" (1994). Vale a pena guardar este último título, porque é esse o que nos trouxe o tema mais reconhecido da história da banda: "Savory". Essa canção trata da beleza da forma feminina e da sedução pela feminilidade, narrando a história de um casal que se lançou num relacionamento baseado na sexualização e objetificação dos seus corpos. Segundo Robbins, a inspiração para colocar essa disfuncionalidade em forma de música veio de uma experiência própria com uma parceira dele há algumas décadas.

Depois de tantas e fortes emoções, ainda houve o concerto dos Gorillaz com o seu mega-espetáculo, trazendo o NOS Primavera Sound ao seu grande momento derradeiro nesta edição de 2022 para quem se identifica com rock e pop.