"No Meu Bairro" reúne 12 pequenas histórias de ficção em rima, protagonizadas por crianças que falam sobre as suas vidas, sobre racismo, identidade de género, religião, bullying e ativismo: Há a história da “Beatriz, a cigana feliz”, do “Magalhães, o menino que tinha duas mães” ou de Rodrigo, que “quer ir comprar um vestido”.

Segundo a editora Nuvem de Letras, que o edita este mês, “No Meu Bairro” é o primeiro livro ilustrado português para a infância a utilizar, em algumas histórias, a linguagem neutra ELU.

À luz desta linguagem, utilizada sobretudo pela comunidade LGBTQI+, os pronomes pessoais ‘ele’ e ‘ela’ transformam-se em ‘elu’ ou ‘elus’, no singular e no plural, e as conjugações verbais e algumas palavras terminam, por exemplo, em ‘es’, ‘us’ ou ‘ies’.

Em entrevista à Lusa, Lúcia Vicente explicou que o livro surgiu como resposta aos professores com quem tem contactado, em visitas a escolas e a bibliotecas, que procuram mais recursos para abordar determinados temas na disciplina de Cidadania.

Sendo recomendado para leitores a partir dos 7 anos, a autora também quis recorrer à linguagem neutra, por considerar que “é preciso começar a testar esta linguagem” na sociedade.

“Não é impô-la. Vai demorar algumas gerações até que isso aconteça, mas é um espaço que acho interessante começar a explorar para perceber se funciona ou não funciona, porque pode não funcionar”, alertou Lúcia Vicente.

A escritora, que anteriormente publicou outras obras como “Portuguesas com M grande” e “Raízes Negras”, admite que o livro possa ser recebido com resistência por parte de alguns leitores.

“Há muita resistência ao que é novo e é diferente. Há muita resistência ao que inclui todas as pessoas da nossa sociedade, tornar visíveis as pessoas que são invisíveis perante os nossos olhos, porque são diferentes, porque nos mostram um caminho novo a nível cultural e a nível social. É mais fácil continuar a apagá-las do que aceitar que elas existem, e se elas existem é porque é preciso mudar alguma coisa na nossa sociedade. E isso dá muito trabalho”, afirmou Lúcia Vicente.

A autora esclarece que o livro “é uma proposta, é uma forma de abrir a discussão”, envolvendo também a área editorial para os mais novos.

“Quer eu quer o Tiago [o ilustrador] não vamos obrigar ninguém, obviamente, a falar de forma neutra. Nós próprios não o conseguimos fazer ainda por uma questão de hábito. Tal como muitas coisas na nossa sociedade, seja ela o machismo, seja ela o racismo, são questões estruturais. Um idioma e a linguagem passam também por uma questão estrutural”, sublinhou.

A edição de “No Meu Bairro” conta com apoio da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género e da AMPLOS – Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual e Identidade de Género, e teve revisão de linguagem e conteúdos da investigadora e ativista Alexandra Santos e de Bruno Gomes Gonçalves, da Associação de Investigação e Dinamização das Comunidades Ciganas.

Sobre questões de abrangência e inclusão, Lúcia Vicente lamentou que não tivesse sido possível, por razões de custos, fazer uma edição do livro em braille, para cegos e pessoas com outras deficiências de visão.

“A logística para que um livro venha com os dois alfabetos em Portugal é inacreditável e é por isso que praticamente não existem livros em Portugal para pessoas cegas”, disse.

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