Integrou várias bandas desde a adolescência, com destaque inevitável para os Broken Social Scene. Foi cúmplice das primeiras provocações de Peaches, nos dias cáusticos de "The Teaches of Peaches" (2000). Tornou-se estrela indie pop com os álbuns "Let It Die" (2004) e "The Reminder" (2007), que atingiram uma popularidade que "Monarch (Lay Your Jewelled Head Down)" (1999), a discreta estreia a solo, dificilmente antecipava.

"Metals" (2011) e "Pleasure" (2017) foram impondo um silêncio mais longo entre edições, mas apuraram uma voz e uma escrita que a colocaram entre as cantautoras mais preciosas do seu (e do nosso) tempo. E seis anos depois do quinto longa-duração, Leslie Feist apresenta-se em "Multitudes" de forma particularmente introspetiva, talvez como nunca antes.

Aos 47 anos, a canadiana regressa com um disco que, além da carga já de si pesada da pandemia, período no qual nasceu a maioria das canções, reflete uma fase na qual foi obrigada a despedir-se do pai e vestiu a pele de mãe pela primeira vez - adotou a filha Tihui em 2019.

Produzido ao lado dos colaboradores de longa data Mocky e Robbie Lackritz, juntamente com Blake Mills, o álbum contou com os multi-instrumentistas Gabe Noel e Shahzad Ismaily e os músicos Todd Dahlhoff (sopros, sintetizadores, baixo) e Amir Yaghmai (cordas, guitarras), além do amigo Chilly Gonzales, numa participação especial.

Feist
créditos: Sara Melvin

Rob Sinclair é outro nome indispensável deste longo parto criativo, uma vez que foi com o cantor e designer (também fulcral para a digressão "American Utopia", de David Byrne) que Feist idealizou um formato invulgar de concerto levado a palco em 2021 e 2022. Os espetáculos encontraram-na rodeada de um público pouco numeroso, procurando uma atuação imersiva e intimista cruzada com um workshop improvisado dos novos temas, testando-os e modificando-os antes de os gravar para o disco.

Embora a percussiva "In Lightning" e "Borrow Trouble", alavancada por cordas e a terminar em euforia gritada, tenham sido amostras com uma intensidade rítmica assinalável, estão longe de ser representativas da atmosfera dominante no alinhamento de "Multitudes", disco muitas vezes acústico e a ceder quase todo o espaço à voz. E diga-se que a interpretação vibrante e maleável de Feist pode dar-se ao luxo de dispensar grandes ornamentos, como aliás as passagens por palcos portugueses também já confirmaram da melhor forma ao longo dos anos. Desta vez, o SAPO Mag reencontrou-a para uma entrevista à distância:

SAPO Mag - "Multitudes" foi maioritariamente composto durante a pandemia. As canções sofreram muitas alterações desde essa altura? Como olha para elas agora?

Feist - A maioria das canções surgiu durante a pandemia, mas depois foi incubada e trabalhada ao vivo, durante um ano, em mais de 90 atuações. Normalmente gravo um disco e apresento-o ao vivo, e ao fim de seis meses sinto que conheço melhor as canções no formato de palco do que no gravado. Neste caso, reverti esse processo e fiquei a conhecer as canções a fundo até mesmo antes de começar a gravá-las.

Feist
créditos: Mary Rozzi

Apostou num formato ao vivo invulgar ao lado de Rob Sinclair. O que pretendia com esse processo e o que mais a surpreendeu nessas atuações?

Essas atuações foram uma experiência a vários níveis. Tocar novas canções, permitindo que se desenvolvessem e se transformassem de concerto para concerto. Todas essas variações foram uma oportunidade de questionar a noção clássica do que é suposto ser a experiência de um concerto e tentar imaginar novas formas de alcançar essa experiência coletiva íntima e partilhada. A ideia que pretendia passar às pessoas era a de que depois de um evento global como a pandemia, nada do que uma pessoa tem a dizer, ou a cantar, é mais importante do que o que qualquer outra pessoa tem a dizer. Exceto, talvez, do que quem tenha trabalhado num serviço de urgências...

Em que medida é que a passagem pelo palco influenciou a versão gravada das canções?

Quando temos uma nova ideia que queremos explorar e a contamos a um amigo, ouvimos algo que estava na nossa cabeça a sair da nossa boca, e percebemos se faz sentido ou não. Aconteceu isso com cada palavra do álbum. Fiz muitos ajustes de noite para noite, mesmo que tenha sido só uma palavra aqui e ali. Foi muito gratificante poder permitir-me errar, ou perceber quando estava a conter-me ou tentar evitar algo, e assim encontrar o melhor caminho para o que queria fazer.

Algumas destas canções estão entre as mais despojadas que já criou. Houve uma tentativa deliberada de apostar nesse tipo de atmosfera e sonoridade?

Só quis descomprimir. Criar uma sensação de proximidade desafogada, como uma pessoa que sussurra perguntas aos ouvidos de outra.

Feist
créditos: Sara Melvin & Colby Richardson

"Multitudes" é o seu primeiro álbum depois de experiências pessoais determinantes que envolveram nascimento e morte. De que forma se refletiram no disco?

Nascimento e morte são dois factos e um dirige-se para o outro. Aconteceu estar no meio dos dois de forma repentina, como acontece a muita gente. A forma como convergiram deu-me uma perceção inegável da passagem do tempo. Teria de ser uma especialista em animação para ilustrar a forma como as coisas sugiram na minha vida a partir daí. Os papéis são rotativos, os bebés e os pais e os avós e os antecessores e o pó das estrelas que inicia o ciclo novamente, as vidas que orbitam em torno de outras e que são como sistemas solares, com o tempo como a força mais abstrata mas determinante de todas...

"Let It Die" está quase a celebrar 20 anos. Como olha para a sua obra desde aí? O que a deixa mais orgulhosa? E quais foram os maiores desafios?

Com algum distanciamento, fico feliz por poder dizer que cada álbum foi verdadeiramente um produto de uma fase da minha vida. "Let It Die" foi um encontro com amigos, "The Reminder" um desejo de mergulhar nas imperfeições da expressão humana, "Metals" um reposicionamento das minhas prioridades emocionais, "Pleasure" tão fragmentado e distorcido como eu me sentia nessa altura e "Multitudes" deixa-me mais perguntas do que respostas. Não tenho a certeza de ter havido grande reflexão ou planeamento na criação de cada um deles, foram todos respostas naturais ao que estava a viver nesses períodos.

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