A HISTÓRIA: Cheia de dúvidas sobre o seu casamento, uma jovem mãe de Nova Iorque (Rashida Jones) junta-se ao seu pai, excêntrico e playboy (Bill Murray), para seguir o marido (Marlon Wayans) pela cidade numa comédia insólita escrita e realizada por Sofia Coppola.

"On the Rocks": disponível na Apple TV desde 23 de outubro.


Crítica: Hugo Gomes

“On the Rocks”, termo traduzido “com gelo”, o gesto de suavizar o sabor agreste do whisky,  resulta nesta sétima longa-metragem de Sofia Coppola numa espécie de anestésico para os obstáculos matrimoniais, o desgaste das relações e, sobretudo, para a nossa interação com o estatuto social. Tal como Bill Murray, que a certa altura afirma, em resposta a uma questão retórica colocada pela sua filha (interpretada por Rashida Jones), que suspeita que o seu marido tem um caso: “Monogamia e matrimónio são baseados num conceito de propriedade”.

Com isto, não queremos reafirmar que “On the Rocks” é, em todo o seu esplendor, um ensaio filosófico/reflexivo das matrizes das nossas proclamadas relações afetivas e as declaradamente matrimoniais.

Sem nunca esconder a sua natureza, é uma comédia dramática algo "privilegiada" (Coppola filma aquilo que conhece e com que interage quotidianamente), cujo tom assumido tom é uma “pedra de gelo” nos pequenos enfoques e dilemas em que ocasionalmente fervilha, inteiramente incorporado num chauvinista Bill Murray, num reencontro com a realizadora (com exceção do especial de Natal da Netflix – “A Very Murray Christmas –, contamos 17 anos desde “Lost in Translation: O Amor é um Lugar Estranho”).

Mas não desvalorizemos este filme pela sua suavidade intencional de extensos "gags" de embaraços e desenganos, guiados pelos envelhecidos maneirismos de Murray: o que “On the Rocks” tem a seu favor são esses diálogos, essas interações e esses pensamentos algo levianos dentro do biótopo nova-iorquino, esboçando uma realidade (em choque com a “normalidade pós-pandemia”) que nos revela um mundo à sua maneira fútil e focado no “cotão” dos seus próprios umbigos.

De certa forma, não será isso mesmo, a possessão relacional com as pessoas nos nossos círculos íntimos, colocando-as nos devidos “sacos” e rótulos, um sinal de capricho individual? Nesse sentido, “On the Rocks” quer enfiar-nos pela "goela" problemas de primeiro mundo que, atirados para este novo panorama em que vivemos, soa a paródia expirada.

Seja qual for a nossa reflexão sobre esta comédia de tiques, manias e fascínios pelas mordomias alheias, “On the Rocks” é uma obra de Sofia Coppola que clarifica o seu gosto pela (aqui não tão assumida) farsa...

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