A HISTÓRIA: O general Washizu e o general Miki perdem-se na floresta e encontram uma bruxa, que prevê que Washizu será rei e que será sucedido pelos herdeiros de Miki. É então que Washizu mata o seu senhor, Kuniharu Tsuzuki, e Miki. A bruxa prevê agora que ele estará a salvo enquanto a floresta não se puser em movimento. Mas o filho de Miki ataca o castelo de Washizu, usando as árvores da floresta como camuflagem. O filho de Washizu nasce morto, a sua mulher enlouquece e ele é traído pelos seus homens.

"O Trono de Sangue": reposição nos cinemas a 15 de outubro.


Crítica: Hugo Gomes

Desde o western algo "fordiano" que resultou nos mais ambiciosos exercícios de jidai-geki (o subgénero de samurais e senhores feudais), passando pela literatura existencialista russa como Dostoevsky, ou, como em "O Trono de Sangue", a tragédia "shakespeariana", Akira Kurosawa nunca escondeu o seu fascínio pela cultura do Novo e Velho Mundo, procurando e requisitando influências e inspirações, servindo de base, sobretudo espiritual, para muitas das suas obras.

Disposto como um "Macbeth" japonês, Akira Kurosawa extraiu o tormento de um general “promovido” a Shogun (o senhor feudal) por vias de uma intensa e delirante sede de poder, incentivado pela profecia de um espírito errante. Para esta “tacada” do legado de William Shakespeare, o cineasta descartou as diretivas da teatralidade clássica do dramaturgo, impondo no seu lugar os contornos do “noh”, um misto de teatro e dança tradicional.

Portanto, em “Trono de Sangue” encontramos um rigor de palco e de coreografias mecânicas que transmitem uma sensação de artifício teatral, que Kurosawa aproveita e enquadra numa técnica de “olho cheio”. Este não é um dos seus filmes mais detalhados e ambiciosos em questão de "mise-en-scène", mas está entre os projetos mais embebidos nos gestos e presenças dos seus atores, nem que seja pela loucura raivosa transmitida por um imprevisível Toshirô Mifune ou da espectral Isuzu Yamada, como a alternativa da Lady Macbeth (cujo o omnipresente som do seu apertado vestido de veludo a acompanha em todos os seus movimentos).

Kurosawa compôs a sua definição de “teatro filmado” num misticismo inabalável e criativamente simbólico. As batalhas, que ocorrem fora do ecrã e cujos resultados são proclamados por mensageiros atribulados e aflitos servindo de anúncio para a nossa tumultuosa tragédia, revelam um cuidadoso espetáculo de palco que resultou num dos filmes mais espirituosos da carreira do cineasta.

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