Isabelle Huppert dispensa maiores apresentações como uma das grandes atrizes de sempre do cinema francês. Aos 63 anos e depois de quase cinco décadas e mais de 100 filmes no currículo, a atriz chegou à ultima edição do Festival de Berlim, ocorrida em fevereiro, como protagonista de “O Que Está Por Vir”, que estreia esta quinta-feira nas salas portuguesas.

A realizadora Mia Hansen-Love acabaria por levar o prémio da categoria por esta obra onde Huppert vive uma professora de filosofia subitamente abandonada pelo marido. Ao mesmo tempo, lida com a mãe doente (a igualmente lendária Édith Scob) e tem uma relação de amizade com um dos seus alunos prediletos (Roman Kolinka).

O SAPO MAG conversou com a atriz na capital alemã onde, afável, divertida e bem-disposta, em nada se pareceu com a intérprete de personagens intensos e dramáticos que lhe valeram no seu país a carinhosa alcunha de “a psicopata favorita dos franceses”.

Entre estes os seus grandes trabalhos está certamente um dos três que fez com Michael Haneke – que lhe rendeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2001 por “A Pianista”. O nome do realizador austríaco vem a calhar: Huppert está às vésperas de embarcar numa quarta aventura com ele com “Happy End”, cujas filmagens começam em julho, perto de Calais. O título sugere mais um dos seus “funny games” – uma vez que o pano de fundo é a questão dos refugiados…

A sua personagem tem uma maneira muito própria de lidar com o abandono. Certamente não seria expectável de uma professora de filosofia uma reação histérica, mas a dela é bastante racional… Acha que há algo de tipicamente francês nesta forma muito racional de encarar acontecimentos dramáticos?

É francês no sentido bom da palavra – isto se isso se referir à uma certa categoria intelectual. Mas não há uma caracterização sociológica da forma habitual como se retratam os intelectuais. Há uma noção estúpida que sugere que as pessoas inteligentes são chatas, quando são apenas iguais a quaisquer outras. No caso da personagem, ela tira um enorme prazer dos livros, dá mais importância a eles do que uma mobília ou peça de roupa. É uma das coisas que gosto no filme. E ela não é chata, está longe disso.

E não há espaço para o sentimentalismo?

Há, mas apenas no sentido de que não é previsível. Normalmente tens uma reação imediata a uma ação – quando um homem diz que vai embora, a mulher chora, etc. Neste caso, há um atraso entre ação e reação, o que torna o filme bastante inteligente. É muito raro retratar esta situação com algum sentido de humor: normalmente uma mulher largada pelo marido deveria morrer imediatamente! [risos]. Mas não, ela não morre!

E por que não outro homem?

Ela não quer encontrar outro homem, ela não procura soluções nos outros, mas antes em si mesma, o que acho que é uma excelente opção. Podes precisar dos outros, mas não pensar que sem eles vais morrer. Ela tem os seus pensamentos, a sua profissão, que é importante para ela. É engraçado porque alguém disse que a solidão está ligada à melancolia, mas para mim não é assim, alguém pode estar sozinho e ser feliz. E ela não está só - às vezes está sozinha, mas isso é diferente.

A sua personagem tem uma aplicação muito pragmática da filosofia.

Aquele é o último curso de filosofia que ela dá e diz que a vida mental pode ser substituída pela carnal… Bom, ela há de querer dizer alguma coisa porque naquele momento ela não tem vida “carnal” nenhuma! [risos]. Noutros momentos ela tem uma atitude estoica e, portanto, deve ter lido os estoicos [risos]. Mas noutras situações é epicurista e hedonista – embora nunca diga que os tenha lido… está sempre implícito.

A sua carreira também sugere muitos conhecimentos de filosofia…

Não é o que parece! [risos]. Infelizmente, não li o suficiente. Os livros são muito úteis e recebi muito auxílio vindo da filosofia. Hannah Arendt, por exemplo. É engraçado porque ontem na conferência de imprensa disseram a Mia [Hansen-Love] que não existiam mulheres filósofas!

O filme também propõe uma discussão de fundo político – nas conversas dela com o estudante.

O que gosto no filme é que a cada momento ela escapa às categorizações – neste caso relativa às gerações. Quando visita esses jovens que vivem em comunidade, como uma espécie de continuação do maio de 68, ela parece sempre menos limitada que eles – e isto a despeito de eles serem mais jovens. Por causa das suas crenças, dos seus conceitos, dos seus dogmatismos, ela é mais livre que eles – por isso finge que tem de ir a Paris e sai de lá. Isto é o que gosto no filme, são “quebradas” todas as possibilidades de dogmatismo.

Em relação à sua entrada no projeto, como gere as suas escolhas? Tem em consideração aquilo que pode agradar?

As vezes a decisão é mais difícil, mas neste caso demorei apenas dois minutos para decidir! Achei o guião muito bom, com uma grande personagem. Para melhorar, aparece em todo lado e não havia competição. Tenho de admitir que gosto disto! [risos]. De resto, nunca poderia esperar agradar toda a gente, seria completamente estúpido. Mas queremos sempre agradar ao número máximo de pessoas – mesmo no caso de filmes controversos ou pouco acessíveis. De qualquer forma, quando estamos a fazer um filme é impossível pensar nisto. Na altura não é uma questão.

Falando dos seus papéis, tem no currículo vários considerados difíceis…

Não são difíceis, de todo. Não existem filmes difíceis de fazer, existem obras difíceis de ver – e as pessoas tendem a confundir isto. Pelo contrário, dá muito mais energia, pois têm mais riqueza e profundidade. Um mau papel pode ser muito mais difícil de fazer. Neste sentido, o que se sobressai é o facto de ser um bom ou um mal filme. Claro que, olhando retrospetivamente, gosto de pensar que a maior parte dos filmes que fiz foram bons.

A propósito, vai fazer um novo filme com Michael Haneke, “Happy End” – sobre a questão dos refugiados.

Sim, mas ainda não posso dizer muito porque as filmagens não começaram. Estou muito feliz por trabalhar com ele outra vez. Também há sempre uma inspiração política no seu trabalho e, portanto, penso que personagens verdadeiros podem falar adequadamente sobre problemas recorrentes no mundo. Neste caso ele decidiu filmar a vida de uma família rica que vive muito próxima dos imigrantes. E mais não consigo avançar neste momento…

Quando começam as filmagens?

Começam em julho. Vamos filmar nas proximidades de Calais, mas não propriamente lá. 

Também tem um trabalho novo com Paul Verhoeven [“Elle”, que viria a ser apresentado com aclamação na última edição do Festival de Cannes]. É diferente trabalhar com realizadores mais experientes?

Há uma diferente dinâmica de realizador para realizador, mas não por causa da experiência. Quando fazemos filmes é sempre a primeira vez para todos. A experiência não quer dizer nada porque é tudo feito naquele momento. A experiência significa algo, claro, mas as coisas acontecem naquela hora, não antes ou depois, há sempre elementos imprevisíveis.

 Depois de tantos anos, o que ainda a motiva na sua carreira? E, já agora, como reage quando é considerada uma espécie de celebridade?

Quando se gosta muito daquilo que se faz acabamos por nos tornar dependentes. Não é só um prazer, é uma necessidade. É como o álcool e acaba por ser um alheamento positivo da realidade. Quanto a isso da admiração… é uma loucura! Quer dizer, entendo, sem problemas, mas simplesmente é uma coisa muito distante da minha realidade quotidiana…

Trailer "O Que Está por Vir".

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