A HISTÓRIA: Quando a sua filha desaparece, Mari Gilbert (Amy Ryan), perante a inércia da polícia, resolve investigar por conta própria uma comunidade fechada de Long Island, onde a jovem foi vista pela última vez. Na sua pesquisa, descobre mais de uma dúzia de jovens profissionais do sexo que foram assassinadas.


"Lost Girls" é um thriller/drama baseado em factos verídicos, onde Mari Gilbert (Amy Ryan), uma mãe em pé de guerra com a polícia, urge para encontrar o rasto da sua filha desaparecida. Resiliente e enraivecida, irá pôr a descoberto o caso de um assassino em série de Long Island, que vitimizou mais de 10 prostitutas na costa leste dos EUA.

Curiosamente, numa Netflix que se excede e satura com abordagens televisivas a casos criminais, a opção para explorar a narrativa do livro homónimo de Robert Kolker caiu na produção ficcionada em filme, pelas mãos da galardoada documentarista Liz Garbus. E, ironicamente, nunca saberemos do seu potencial enquanto série documental, com mais tempo para explorar os contornos suspeitos, macabros ou interesse noutras famílias das vítimas.

Mantendo o foco em Mari Gilbert, enquanto esta confronta a inércia e indiferença da polícia, dedicando o seu tempo e esforço à sua própria investigação, Garbus cria um exame sóbrio à emoção de raiva latente, que reage desde a vitimização ao empoderamento, e também a uma dicotomia de género e respetivos comportamentos e ameaças.

Se de um lado vemos homens polícias incapazes e figuras patriarcais da comunidade a serem nocivas e desinteressadas, do outro vemos mulheres, que mesmo em luto, são activistas e incansáveis. Mari e as suas outras duas filhas nunca desistem e não se deixam ficar à mercê do sensacionalismo e despeito dos "media", assinalando a misoginia e a indiferença institucional da polícia e da comunidade de Oak Island, onde ocorreram os assassinatos.

Como o sub-título do filme indica - "An Unsolved American Mistery" - há um limite de factos para explanar. E como o propósito de Garbus não é a revelação do assassino ou dos vários suspeitos, o filme desequilibra-se quando a raiva de Mari rebate na figura de um comissário (Gabriel Byrne) que pouco vemos a fazer. Assim, não temos como fazer o nosso próprio julgamento e indagar se a polícia agiu com tudo o que estava ao seu alcance para desvendar o crime.

Com esta opção, a cineasta permite que temas sociais como prostituição e drogas se elevem e dissipem organicamente através da paixão e olhar dos membros da família, pois estas, mais do que verem uma prostituta morta, vêem uma filha e uma irmã. E mais do que isso, reage e respeita ao facto de não terem um encerramento, uma conclusão.

“Lost Girls” transforma-se assim mais num drama anti-thriller, como uma vigília longa onde a vela teima em não se poder apagar.

"Lost Girls": disponível na Netflix a partir de 13 de março.

Crítica: Daniel Antero