A HISTÓRIA: Diz-se que jamais se pode fugir ao amor de uma mãe, mas para Chloe (a estreante Kiera Allen), isso não é um conforto – mas sim, uma ameaça. Existe algo antinatural, até mesmo sinistro, na relação entre Chloe e a sua mãe, Diane (Sarah Paulson). Diane criou a sua filha em total isolamento, controlando cada movimento dela desde o nascimento. Mas agora, com idade para entrar na faculdade, Chloe descobre inconcebíveis segredos que começam a fazer sentido e explicam tanto da sua vivência.

"Corre!": nos cinemas a partir de 7 de outubro.


Crítica: Daniel Antero

Instinto maternal? Mãe galinha? A personagem Diane Sherman em "Corre!" não engana ninguém. Os seus instintos matriarcais estão definidos ao pormenor com o intuito de ser a melhor mãe possível.

Mas quando este papel é entregue à atriz Sarah Paulson, conhecida pelas participações perturbadoras e macabras em "American Horror Story" ou "Ratched", percebemos logo que este cuidado e carinho irá resvalar para o abuso.

Na senda das séries como "The Act" e "Sharp Objects", "Corre!", de Aneesh Chaganty (de "Searching", 2018) é o mais recente projeto assente no "Síndrome de Munchausen por Procuração", uma condição pela qual o pai, mãe ou tutor inventam sintomas e doenças noutros, de modo a desempenharem o papel de cuidador.

Aqui, a vítima é a engenhosa e empática Chloe, a filha adolescente de Diane - interpretada pela norte-americana Kiera Allen, utilizadora de cadeira de rodas na vida real - que está confinada em quatro paredes e expectante que o seu mundo se abra quando receber a carta de admissão na universidade. Que nunca mais chega…

"Corre!" é um "thriller" de horror camuflado pelo suspense à Hitchcock, onde as limitações são vantagens para avançar a narrativa e a representação de Allen e Paulson motor convincente dos distúrbios, sustos e perturbações.

O argumento de Chaganty e Sev Ohanian não se preocupa em ser plausível. Existe numa normalidade calculada, que ignora a construção de um mundo completo, mantendo Chloe e Diane numa realidade restrita, sufocando-as nas imediações internas da casa e aumentando a tensão nas externas, como no telhado ou no jardim.

À medida que avança, acompanhamos a ligação entre mãe e filha, que no seu quotidiano vai variando entre a obsessão e a desconfiança, para rapidamente descambar numa linha crescente de ações que culminam com a fuga de Chloe, onde as suas limitações físicas e espaciais serão capitalizadas.

Esta manipulação de Chaganty concentra-nos na mecânica de um "thriller" propulsivo, onde enleados pela banda sonora de Torin Borrowdale - que relembram as partituras de Bernard Herrmann, colaborador de Hitchcock - somos perturbados com as habituais reviravoltas, que aqui distorcem a condição de quem é que, afinal, precisa do outro para sobreviver.

Assumindo o espírito "campy" e a qualidade de série B, "Corre!" é eficaz e assaz na ação sobre os limites maníacos de Diane/Sarah Paulson e o terror que Chloe/Kiera Allen vive. E Chaganty tem ainda uma na manga. Não se estranhe quando a necessidade de escape à Hitchcock de repente virar para o pânico de um "Misery"...

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