A HISTÓRIA: Veronica, uma autora de sucesso, vê-se presa numa realidade horrífica e tem de resolver o mistério aparentemente insolúvel antes de ser tarde demais.

"Antebellum - A Escolhida": nos cinemas a 1 de outubro.


Crítica: Hugo Gomes

Para muitos (e sublinhamos a palavra "muitos" aqui), “Antebellum - A Escolhida” poderá ser um filme oportunista, que surge numa época de tenebrosa ebulição racial de um lado da trincheira e uma “cancel culture” [cancelamento cultural] que instintivamente tenta apagar registos da História do outro lado. Porque esta obra da dupla Gerard Bush e Christopher Renz é isso mesmo, mas também um ensaio pertinente sobre a nossa sensibilidade, seja ela humanista ou politizada.

O choque arranca com o seu arrastado início, acompanhando os créditos, num terreno sulista datado de outras eras, mais apropriadamente da Guerra Civil Norte-Americana (1861-1865), durante um extenso travelling, que por sua vez, transforma-se num ainda mais prolongado "slow-motion".

Nessa transição, o paraíso harmonioso entre animais e homens e soldados de todas as estripes dá lugar a um campo de escravos de que alguns se evadem. A intersecção e a detenção por parte da “autoridade” local faz-se nestes moldes estetizados de embelezamento de horrores.

Ou seja, ficamos a perceber o teor do filme, o de repescar de memórias passadas: “Antebellum - A Escolhida” faz questão de relembrar constantemente que o passado não permanece isso mesmo, passado. "O passado nunca morre. Nem sequer é passado", citando William Faulkner.

Nesse sentido, temos aqui imposto um jogo temporal onde uma bem-sucedida escritora (interpretada pela artista Janelle Monáe), por vias de forças ainda por esclarecer, é “transportada” para uma plantação de algodão do século XIX. E claro, sendo negra, é automaticamente escravizada por latifundiários que proclamam “Sangue e Terra”.

Sob vestes de História remota, este dispositivo leva-nos automaticamente a mergulhar em contextos atuais, o espírito esclavagista e o entusiasmo pela Confederação (que perdeu a guerra civil) estão aqui de braço dado para motivar uma discussão sobre a dita “cancel culture” e questionar o que aconteceu a esses temas tabus, “proibidos” por um consentimento moralista.

Tal como “Foge” (Jordan Peele, 2017), este é um filme de várias interpretações nesses quadrantes raciais e politizados. Por um lado, pregando, em jeito de oportunidade, por uma reestruturação educacional e política, em contraste com as crescentes ideologias ultraconservadoras; por outro, remete-nos para as mazelas desse processo de “limpeza” rápido e imperativo.

“Antebellum - A Escolhida” é inegavelmente um filme apropriado para a discussão e o debate acesso e essa pertinência destaca-o para lá dos seus valores cinematográficos, que são quebradiços em termos narrativos (existe uma artificialidade na construção do dito mundo moderno para o colocar lado-a-lado com a reconstituição de época) e uma sensação demasiada higienizada dessa mesma discussão. Para o bem e para o mal, fiquemos elucidados: este é dos filmes deste momento social e político.

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