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«A Guerra dos Tronos»: a História da Europa num mundo de fantasia

8 de julho de 2013

Por vezes encontramos mais verdade nas séries televisivas de fantasia que nas versões de ficção histórica. Os Sete Reinos de Westeros e as famílias nobres que disputavam o poder e o controlo da região não existiram, mas são mais reais do que as personagem de «Os Bórgia» ou «Spartacus». Há, contudo, que entender o quadro mental da civilização e época a que reportam.

Sendo os autores da série - David Benioff e D. B. Weiss - e da obra que lhe serviu de base - «A Song of Ice and Fire», de George R. R. Martin – anglo-saxões, seria de esperar uma referência à História da formação do que é hoje o Reino Unido. Mas, entre as personagens de exilados e fugitivos, parece também que nos remetem a outros mundos: a sul, o mundo árabe da Hispânia e da bacia do Mediterrâneo; a norte, o dos Vikings; e a este, o dos Normandos e demais povos nómadas. E esta seria a mundividência que um nobre da ilha da Bretanha teria durante aquilo que comummente se chama “Idade das Trevas” e que os académicos preferem designar por Alta Idade Média. Demoremo-nos então um pouco no que foi a História da Grã-Bretanha nesta altura.

O domínio romano da Britânia finda na primeira década do séc. V e a população diminui drasticamente. A ilha vai sendo, entretanto, ocupada por povos germânicos: os Jutos da Noruega, os Saxões e os Anglos da Alemanha. Este trio forma o que hoje chamamos de anglo-saxões. Já para o fim do século, os britânicos - originais da Ilha de Man - travam o avanço anglo-saxão para oeste da ilha. No séc. VI recomeça a expansão anglo-saxónica e, depois
de várias batalhas, conquistam Cirencester, Gloucester e Bath mas ficam separados, pelo canal de Bristol, dos anglo-saxões de Gales.

Com esta cisão a região a oeste passa a ser designada por West Country e agora já se torna um pouco mais clara a escolha do nome Westeros para a terra mítica da série. Mas continuemos: os anglo-saxões insistem na expansão e até ao séc. IX vão ganhando terreno e conquistam grande parcela aos britânicos. Os reinos conquistados foram Nortúmbria, Mércia, Kent, Ânglia Oriental, Essex, Sussex e Wessex. A este período chamam os historiadores de heptarquia, ou seja, o governo dos sete. Percebemos agora que não foi tão inocente a escolha de sete reinos também para o mundo de «A Guerra dos Tronos».

Nos séculos seguintes, na História da Grã-Bretanha deu-se a resistência às invasões dos Vikings e uma infinidade de guerras para conquista e manutenção de territórios, assim como guerras dinásticas internas. No fundo, todo o enredo de «A Guerra dos Tronos». As intrigas, traições, mortes violentas, casamentos de conveniência, paixões inconvenientes não são literatura ou efeito fácil televisivo mas sim a mais verdadeira da História da Civilização Ocidental. Tudo aquilo que nos é omitido nas aulas de História do ensino secundário é o que verdadeiramente determina o fio do tempo humano.

Quando a ficção espelha a realidade

Com o exílio e diáspora de Daenerys Targaryen (intrepretada por Emilia Clarke) ficamos a saber um pouco mais dos povos nómadas do este e do sul. Com os Dothraki encontramos paralelos com os Mongóis de Gengis Cã no seu amor pelos cavalos e tácticas de guerra; com os povos de Essos temos a referência ao mundo árabe e ao seu comércio de escravos provenientes da África sub-sariana; e com os Qarth aos muito ricos árabes abássidas do Al-Andaluz (atual Espanha).

Pelo fugitivo Jon Snow (interpretado por Kit Harington) ficamos a conhecer os povos do Norte. Os vários grupos que o herói encontra fazem-nos lembrar ou imaginar aqueles que existiram na região fino-escandinávia no período de migração (séc. V-VI) e no período dito Vendel (séc.VII-VIII). Estes povos eram conhecidos pela sua ferocidade e dureza sabendo-se que realizavam sacrifícios humanos. É nesta calha que se forjam os Vikings, quando estes povos se organizam e iniciam incursões a sul, nos seus velozes barcos, para conquistar, matar e saquear.

Um dos últimos episódios chocou e espantou muitos dos telespetadores pela sua violência. No casamento em que se forjaria uma aliança entre duas famílias nobres, uma terrível matança acontece eliminando, por completo, uma das facções. Poderemos encontrar na História do mundo ocidental tal atrocidade? Claro que sim e em vários exemplos.

George R. R. Martin diz ter-se inspirado em dois eventos trágicos da História da Escócia: no fatídico Jantar Negro, de 1440, e no Massacre de Glencoe, ocorrido em 1692. O primeiro evento acontece por uma vontade de acesso e controlo do jovem rei Jaime II, então com apenas dez anos. Sir William Crichton que detinha o Castelo de Edimburgo torna-se Chanceler da Escócia e deseja obter o governo deste reino. Para tal tinha que derrubar a influente família Douglas. Numa noite de dezembro, convida convida William Douglas, 6º Conde de Douglas, de 16 anos de idade, e o seu irmão mais novo David, para um jantar no castelo onde, uma vez lá chegados, são sumariamente decapitados na presença de um Rei criança.

O segundo ocorre, não durante um jantar, mas pela alba quando os representantes do clã Campbell são assassinados em suas camas, pelos membros do clã MacDonalds, que os tinham acolhido em sua casa. O que motiva tal acto são, mais uma vez, desejos de supremacia. Tinha acabado de acontecer o primeiro levante jacobita que pretendia reconduzir Jaime II de Inglaterra (e VII da Escócia) ao trono após este ter sido deposto pelo Parlamento, durante a Revolução Gloriosa, que o substitui pela sua filha Maria II e pelo genro Guilherme, Príncipe de Orange. Guilherme oferece um perdão a todos os clãs que tivessem participado no levante caso fizessem um juramento de fidelidade ao rei, perante um magistrado, até ao primeiro dia de 1692. Por terem sido os Campbell dos últimos a fazer tal juramento, acharam-se os MacDonalds no direito de os massacrar de forma a caírem nas graças dos novos soberanos.

Mas se quisermos procurar um casamento trágico, semelhante ao da série, também o encontraremos. Basta lembrar a malfadada Noite de S. Bartolomeu que os cinéfilos devem recordar da magnífica película de Patrice Chéreau, «A Rainha Margot». Na noite de 23 de agosto de 1572, após o casamento da católica Margarida de Valois com o protestante Henrique IV, rei de Navarra mais de três mil protestantes foram assassinados na cidade de Paris salvando-se a curtas expensas o próprio esposo da princesa. Por mais terrível que nos pareça o acto, este não foi, à época, mal recebido: nenhuma nação ou casa real europeia esboçou qualquer reprovação à chacina. E o fio da História continuou, serenamente, a ser fiado.

Se atentarmos ao passado da Europa, casos de homicídios, fratricídios, parricídios ou mesmo matricídios são comuns. Incesto, perversão e política de alcova, uma banalidade. Intrigas, traições e conspirações, o prato do dia. Todos estes elementos são ingredientes perfeitos para um bom argumento e a produção de literatura e séries televisivas da melhor qualidade. Surpreender-se ou chocar-se com a violência e crueldade de «A Guerra dos Tronos» é não conhecer a História do que é hoje a civilização ocidental.

@Nuno Vaz de Moura

Metropolis

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